No Fundão alia-se a reconversão de carreiras à fixação de pessoas

O Fundão decidiu apostar na tecnologia como motor de mudança. Um programa de formação intensiva em programação permitiu a jovens redirecionarem as suas carreiras, mas também percursos de vida, com muitos a fixarem-se naquele concelho.

No Fundão alia-se a reconversão de carreiras à fixação de pessoas

No Fundão alia-se a reconversão de carreiras à fixação de pessoas

O Fundão decidiu apostar na tecnologia como motor de mudança. Um programa de formação intensiva em programação permitiu a jovens redirecionarem as suas carreiras, mas também percursos de vida, com muitos a fixarem-se naquele concelho.

Sofia Manuel, do Porto, tem 31 anos e está há quase cinco no Fundão. Quando decidiu inscrever-se na Academia de Código naquela vila do distrito de Castelo Branco, queria mudar de vida e abandonar a profissão que tinha como engenheira civil, apenas ainda não sabia que a mudança seria tão grande.

“Pensei: Meu Deus, agora vou para o Fundão? Ok, vou três meses. Agora, já são quatro anos que estou aqui. Apaixonei-me pela terra e fiquei”, contou à agência Lusa a jovem que trabalha para uma das várias empresas tecnológicas que se mudaram nos últimos anos para aquele concelho próximo da fronteira com Espanha.

O programa de reconversão, numa parceria entre a Câmara do Fundão e a Academia de Código, consiste numa formação intensiva em programação de três meses destinada a pessoas de qualquer área, que só começa a ser paga depois de os participantes terem terminado o curso e depois de estarem empregados.

Aquilo que começou como “um namoro à primeira vista” entre as duas entidades é hoje “um casamento bastante duradouro” e com resultados, disse à Lusa o presidente da Câmara Municipal, Paulo Fernandes.

Ao longo dos últimos cinco anos, cerca de 300 jovens (com uma média de idades de 27 anos e meio) já reconverteram os seus percursos formativos “e muitos reconverteram também o seu percurso de vida, que muitos vieram trabalhar para o nosso ecossistema”, realçou.

Há licenciados em teatro, antropologia, história, design e outros que nem curso superior têm, notou.

Com uma taxa de empregabilidade de cerca de 96%, o programa acompanha também a ‘reconversão’ do próprio concelho, conhecido pela sua cereja e que era marcadamente rural.

Ao mesmo tempo que apostou nesta iniciativa, a Câmara do Fundão decidiu criar um programa de atração de empresas tecnológicas, que lhe valeu um prémio da Comissão Europeia, em 2018.

“Nós não tínhamos nenhuma empresa tecnológica há dez anos, quando começámos este processo. Contava-se pelos dedos de uma mão os engenheiros informáticos que trabalhavam no concelho. Hoje, devemos andar a caminhar para perto dos 800”, frisou.

Sofia Manuel recorda que a formação foi “muito intensa”, sendo comum dormir quatro horas por dia e sem fins de semana para descansar.

“Tem que haver aptidão para aprender e depois aquela vontade de querer fazer, de querer mudar. É uma oportunidade que te estão a dar e tu dás tudo, dás o litro, dás o sangue, passas aqui o teu tempo, já não há maquilhagem, já não há cabelos feitos, só fato treino e mantas nas costas e passas assim os três meses”, relembrou.

Apesar do esforço, “compensou”.

“Fui contratada logo no final” do curso, para uma empresa que se instalou no Fundão, onde já teve oportunidade de crescer, sendo hoje gestora de uma equipa, frisou.

Igor Busquets, designer gráfico de São Paulo, no Brasil, estava em Lisboa à procura de trabalho quando ouviu falar do programa de reconversão no Fundão.

“Estava mesmo à procura de ‘bootcamps’ de programação, porque a minha área está em queda e o futuro estava mais difícil e procurei áreas do meu interesse e que estão crescimento. A área da programação tem muita procura e pensei: vai ter que ser”, contou.

Igor, de 40 anos, recorda a dificuldade que foi os três meses de formação, mas também ele assinou contrato no último dia de aulas.

“Parece história de filme mesmo. Nem acreditei”, acrescentou.

A história da aposta digital no concelho do Fundão não irá parar aqui, realçou o presidente da Câmara.

Com um novo ecossistema ligado às tecnologias que era inexistente há dez anos, hoje já se começa a falar de ‘agrotech’ num concelho com uma forte componente agrícola e a própria “indústria convencional pode apostar nos modelos da indústria 5.0”.

Também na educação, o concelho introduziu “academias de código juniores”, fazendo com que todas as crianças a partir dos seis anos no Fundão aprendam programação.

“Isso é atribuir o valor económico da atividade e reparti-lo por todos os setores económicos e por toda a comunidade. Por aí, sim, podemos dizer que alguma coisa se alterou desde que começámos a ter um ecossistema desta dimensão e a consolidar-se a uma velocidade tão grande”, frisou Paulo Fernandes.

A transição digital foi definida como uma das linhas de ação da presidência portuguesa do Conselho da União Europeia (UE), que se propõe dar prioridade às iniciativas que contribuam para acelerar esta transição enquanto motor da recuperação económica e promover a liderança eu­ropeia na inovação e economia digitais.

O programa da presidência aponta nomeadamente o desenvolvimento de competências digitais com vista à adaptação dos trabalhadores aos novos processos produtivos, a transformação digi­tal das empresas e das plataformas digitais, a promoção da saúde e prevenção da doença e a educação e formação ao longo da vida.

JGA // MDR

By Impala News / Lusa

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