Morreu o fotógrafo que imortalizou a emigração portuguesa em França

Morreu o fotógrafo que imortalizou a emigração portuguesa em França

Gérald Bloncourt, o fotógrafo que imortalizou a emigração portuguesa em França nos anos 60 e 70, nomeadamente nos bairros de lata, morreu hoje, aos 92 anos, disse à Lusa fonte da família.

O fotojornalista retratou os “bidonville” portugueses, mas também fez imagens da viagem clandestina – “a salto” – para França, assim como imagens de Portugal sob a ditadura e no período que se seguiu ao 25 de Abril de 1974.

Gérald Bloncourt foi condecorado com a ordem de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique, pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, durante as comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, que decorreram entre 10 e 12 de junho de 2016.

As suas fotografias integraram várias exposições em Portugal e França, nomeadamente no Museu Berardo, em Lisboa, em 2008, na mostra intitulada “Por uma vida melhor” e fazem parte dos arquivos da Cité nationale de l’histoire de l’immigration, em Paris, e do Museu das Migrações e das Comunidades de Fafe.

Gérald Bloncourt nasceu em 1926, no Haiti, de onde foi expulso no final da década de 1940 por razões políticas e passou a residir em Paris, onde iniciou uma carreira de fotojornalista que o levou ao encontro dos portugueses nos anos 60 nos bairros de lata dos subúrbios da capital francesa.

“Era uma forma de escravatura moderna. Havia lama no inverno, era frio. Eram barracas feitas com tábuas, bocados de chapa. Era uma vida difícil, muito rude. Os homens iam trabalhar para as obras, as mulheres ficavam com as crianças”, recordou, o fotógrafo à Lusa, em abril de 2015.

O primeiro “bidonville” que o repórter fotografou foi o de Champigny-sur-Marne, nos arredores de Paris, mas a abordagem não foi fácil: “Quatro portugueses viram-me e apanharam-me. Pensavam que eu era um polícia. Prenderam-me e meteram-me lá num edifício feito de tábuas. Havia lama por fora, mas lá dentro era asseado e tínhamos de tirar os sapatos.”

Enquanto o fotógrafo aguardava, descalço, os portugueses “foram buscar o chefe”: “Quando o chefe chegou, disse-me “Que estás aqui a fazer?” Eu conhecia-o. Era um militante sindicalista da Renault que era o chefe do bairro de lata. Abraçámo-nos, bebemos uma garrafa de Porto e depois pude voltar”, lembrava.

Os relatos que ouvia nos bairros de lata levaram-no a querer descobrir Portugal e a fotografar as rotas clandestinas dos que tentavam fugir à ditadura, num percurso que ficou conhecido como “O Salto”.

“Conheci resistentes contra Salazar e – como eu próprio fui resistente contra a ditadura do meu país – quis lá ir. Fui a Portugal na época de Salazar, fiz toda a rota da emigração, de Lisboa passando pelo Porto, Chaves e aquela região. Fui mesmo detido pela PIDE uma vez. Eu tinha metido rolos para eles na mala e eles encontraram-nos. Mas eu tinha colado nas costas um par de meias com os rolos de fotografias importantes que consegui salvar e que estão hoje publicadas e expostas”, contou.

Anos depois, o fotógrafo regressou a Portugal, onde aterrou nas vésperas do 1.º de Maio de 1974, para “tentar fazer algumas fotos” perante “mais de um milhão de pessoas com cravos e um povo em júbilo”.

“Como estava em contacto com eles [os emigrantes portugueses], avisaram-me da Revolução dos Cravos. Fui logo a Portugal de avião, encontrei um lugar e estava no mesmo avião que Cunhal. Os camaradas dele cantavam e batiam com os pés e a hospedeira foi-lhes pedir para parar. Vivi a revolução dos cravos. Foi uma coisa incrível”, descreveu.

Com um arquivo de mais de 200 mil imagens, Bloncourt foi contactado apenas por um punhado de pessoas que se reconheceram nas fotografias, como Maria da Conceição Tina Melhorado, que foi ter com ele 47 anos depois de ter sido fotografada com uma boneca no “bidonville” (bairro de lata) de Saint-Denis, uma imagem que foi o rosto da exposição “Por uma vida melhor”, no Museu Berardo.

“Quando ela chegou, tive diante de mim meio século de memórias. Vi a minha pequena Maria que estava ali. Fiquei muito maravilhado porque ela não tinha mudado. O seu olhar era o mesmo que na fotografia de criança e o seu sorriso também. Abraçámo-nos, chorámos, foi muito emocionante”, lembrava o fotógrafo.

A generosidade e o humanismo era uma das suas características e chegou a oferecer um espólio de cerca de 100 imagens ao Museu da Emigração de Fafe.

Gérald Bloncourt era também pintor e poeta, tendo participado na criação do Centro de Arte Haitiana (1944) e publicado vários livros.

O funeral está previsto para 05 de novembro, a partir das 14:30 locais (menos uma hora em lisboa), no cemitério Père Lachaise, em Paris.

CAYB // PVJ

By Impala News / Lusa

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