Moçambique. Mulher polícia escreve sobre violência doméstica que atinge todas as classes

A psicóloga clínica e adjunta de comissária da Polícia da República de Moçambique Lurdes Mabunda considerou que a violência doméstica no país não discrimina classes sociais nem estatuto académico, porque resulta de algumas “práticas culturais tóxicas”.

Moçambique. Mulher polícia escreve sobre violência doméstica que atinge todas as classes

Moçambique. Mulher polícia escreve sobre violência doméstica que atinge todas as classes

A psicóloga clínica e adjunta de comissária da Polícia da República de Moçambique Lurdes Mabunda considerou que a violência doméstica no país não discrimina classes sociais nem estatuto académico, porque resulta de algumas “práticas culturais tóxicas”.

A psicóloga clínica e adjunta de comissária da Polícia da República de Moçambique Lurdes Mabunda considerou que a violência doméstica no país não discrimina classes sociais nem estatuto académico, porque resulta de algumas “práticas culturais tóxicas”. “Todos somos potenciais vítimas de violência doméstica, porque é uma prática com uma força indiscriminada, não escolhe classe social nem estatuto académico”, declarou Mabunda à Lusa a propósito da sua nova obra “Radiografia da Violência Doméstica em Moçambique: O Relato de Quem Está Por Dentro”.

São 237 páginas e sete capítulos em que se coloca a mulher como a principal vítima de violência doméstica e em que se apontam alguns princípios defendidos pelo sistema patrilinear vigente nas comunidades moçambicanas como a principal causa do sofrimento infligido às mulheres.

“No período entre 2015 e 2019, mais de 50 mil queixas de violência doméstica nos gabinetes da polícia que tratam dessa matéria foram apresentadas por mulheres e apenas 12.004 por homens. Essas cifras mostram a feminização da violência doméstica”, enfatizou. Lurdes Mabunda alertou que prevalece a perceção de que os “números institucionalizados” estão muito aquém da realidade, porque ficam de fora “muitas cifras negras” — o conceito usado para casos não relatados às autoridades.

“Desde a nascença, os homens são ensinados a ter uma relação de posse sobre a mulher e a assumir a sua supremacia física como uma vantagem para imporem relações de domínio”, explicou. Por outro lado, prosseguiu, as mulheres são formadas para a submissão e subserviência em relação ao homem, condições que perpetuam a violência doméstica nos lares moçambicanos. “Há inúmeros casos em que são as famílias a pressionar as vítimas a retirar queixas de violência doméstica, porque está normalizada, mesmo sendo um crime de natureza pública”, revelou a adjunta de comissária da Polícia da República de Moçambique.

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A psicóloga observou que a violência doméstica também é potenciada pela submissão económica da mulher, porque há vítimas que preferem viver com o agressor, devido à segurança económica e financeira que lhe dão, apesar das agressões.

Mabunda defendeu uma mobilização geral contra a violência doméstica, envolvendo a educação, igrejas, líderes comunitários e instituições públicas e estatais. “A criança de hoje será um adulto potencialmente violento, se não for educada para a paz conjugal e a harmonia familiar”, enfatizou. Na dimensão legal, continuou, Moçambique deu passos importantes, mas há imperfeições que devem ser corrigidas.

“A lei contra a violência doméstica trata a mulher e o homem da mesma forma, quando o principal rosto deste drama é feminino”, referiu. Por outro lado, o processo de responsabilização criminal da violência doméstica devia ter uma forma própria, dada a celeridade para este tipo de delitos, acrescentou. A dirigente policial também alertou para o erro de a lei de combate à violência doméstica não incluir a criança e o idoso, num contexto em que também são vítimas de abusos nas relações com familiares.

Mabunda defendeu igualmente maiores investimentos na criação de mecanismos de proteção das vítimas, assinalando que o país dispunha de apenas 323 gabinetes de atendimento em 2019. Essas estruturas não estão dotadas de condições para o acolhimento das vítimas, que, muitas vezes, são obrigadas a voltar a conviver com o agressor, após apresentarem queixa na polícia. Formada em Psicologia Clínica e licencianda em Direito, Lurdes Mabunda foi chefe do Gabinete de Atendimento à Família e Vítimas de Violência Doméstica em Maputo.

 

 

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