Livro “Afropeu” indica o bairro da Cova da Moura como um alerta para a Europa

O livro “Afropeu” do britânico Johny Pitts alerta que a Europa corre o risco de “multiplicar” bairros como o Cova da Moura, se continuar a “fechar os olhos” às realidades sociais e raciais como as que se vivem na Área Metropolitana de Lisboa.

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Livro “Afropeu” indica o bairro da Cova da Moura como um alerta para a Europa

O livro “Afropeu” do britânico Johny Pitts alerta que a Europa corre o risco de “multiplicar” bairros como o Cova da Moura, se continuar a “fechar os olhos” às realidades sociais e raciais como as que se vivem na Área Metropolitana de Lisboa.

Após visitar o bairro degradado da Amadora, habitado maioritariamente por cidadãos de origem africana, o escritor e fotógrafo britânico escreveu que a Cova da Moura é “indicativo de uma narrativa oculta por toda Europa”, demonstrando que os mais desfavorecidos da zona da capital portuguesa vivem misturados com o resto da população “trabalhadora e consumidora”, como se fossem invisíveis.

“A Cova da Moura era isso. Um mundo oculto que obrigava a questionar a identidade e as estruturas por detrás das visões grandiosas de Lisboa. Mas esta visão não pode ser mantida para sempre. Se o Ocidente continuar a vilipendiar ou a fechar os olhos à pobreza global, às enormes desigualdades e às necessárias migrações ambientais e económicas que atualmente ocorrem, a maior parte da Europa poderá parecer em breve a Cova da Moura”, escreveu Pitts no livro “Afropeu”, que foi traduzido para português.

O livro “Afropeu – A diáspora negra na Europa”, distinguido com o European Essay Prize 2021, é o registo da longa viagem do britânico Johny Pitts, nascido em Sheffield, norte de Inglaterra, filho de mãe europeia e de pai afro-americano. 

O termo “Afropeu” (“Afropean”, no original), foi inicialmente utilizado pelo músico norte-americano de origem escocesa David Byrne, nos anos 1990, e é definido no livro como um espaço onde a “negritude” participa na formação da identidade europeia “no geral”, e que “ser negro na Europa” não significa ser imigrante.

Mesmo assim, o autor de 38 anos explica que escrever sobre a interação entre as culturas “negra e europeia” não podia limitar-se a uma utopia, assim como não podia ignorar intencionalmente realidades partilhadas por uma maioria de pessoas negras a viver no continente, correndo o risco de esquecer uma grande parte da população.

“Significava tornar completamente invisíveis os inúmeros grupos de negros desempregados que vi nas estações de comboio ou as mulheres africanas que limpam casas de banho, ou as comunidades marginalizadas que lutam nos arredores das cidades”, escreve o autor.

Numa tentativa de saber o que significa ser negro e europeu, o autor visita bairros e zonas habitadas por negros em Paris, Bruxelas, Amesterdão, Berlim, Estocolmo, Moscovo, Marselha, e termina a viagem em Lisboa.

 No capítulo “Uma Favela Europeia”, Pitts relata o passado colonial português, retrata as especificidades da História portuguesa em África, referindo-se aos movimentos de libertação, à diáspora de Cabo Verde ao longo do século XX, em Portugal, e a descobre a questão dos “milhares de retornados” ao contactar com Nino, filho de um “português branco”, obrigado a voltar para Portugal após a independência de Moçambique em 1975.

“Perguntei-me: será que o pai de Nino reclamaria ser ‘afropeu’?”, questiona o autor do livro.

A viagem termina no Bairro da Cova da Moura onde o autor contacta com moradores, sobretudo jovens que lamentam que os esforços dos pais, em grande medida, não sejam recompensados.

“Esse é o problema, crescemos e os nossos pais nunca têm tempo para nós, porque estão arduamente para o futuro, mas esse futuro não chega, eles acabam por não ter nada”, relata ‘Jacaré’, jovem habitante da Cova da Moura.

O texto refere ainda as questões ligadas às “brutais rusgas noturnas da polícia”, citando um relatório da Rede Europeia de Pessoas de Ascendência Africana (ENPAD) respeitante aos anos entre 2000 e 2014: “Cerca de 40 indivíduos foram mortos por polícias em circunstâncias nebulosas e (…) um número desproporcional desses indivíduos (um terço) eram jovens negros”.

Por outro lado, o autor, que relata a passagem de um grupo de polícias “vestidos com equipamento antimotim” no bairro, ouviu as queixas dos residentes mais jovens sobre a dificuldade em conseguirem empregos, porque a morada que indicam é “Cova da Moura”. 

A longa dissertação de Pitts ao longo do livro sobre o conceito “Afropeu” cruza não só as descrições dos locais visitados e as conversas acidentais com os moradores ou ativistas, mas elabora também o enquadramento histórico e cultural da influência africana nos vários pontos do continente, nomeadamente a ascendência de escritores como Alexandre Dumas, em França, e Aleksandr Púchkin, na Rússia.

Particularmente interessante é o debate na Bélgica sobre a obra de banda desenhada de Hergé “Tintin em África”, sobre o passado colonial belga, assim como a referência ao longo do livro da música que influenciou a cultura europeia: jazz, soul, reggae, dub ou hip-hop. 

Jonhy Pitts é filho do músico norte-americano Richie Pitts (The Fantastics), um nome relevante da Northern Soul, um movimento de música e dança que emergiu nas zonas industriais britânicas nas décadas de 1960 e 1970.   

O livro “Afropeu – a diáspora negra na Europa” (Temas e Debates, 434 páginas), de Johny Pitts, vai ser apresentado no sábado, na livraria Ler Devagar, em Lisboa, e incluiu várias fotografias do autor.

 

PSP // MAG

By Impala News / Lusa

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