Igreja Católica timorense deve repensar o seu papel no país — arcebispo Díli

O arcebispo de Díli considera importante repensar o papel e missão da igreja católica em Timor-Leste, depois dos anos em que foi refúgio e voz da luta pela independência, apostando na reevangelização e numa maior proximidade aos cidadãos.

Igreja Católica timorense deve repensar o seu papel no país -- arcebispo Díli

Igreja Católica timorense deve repensar o seu papel no país — arcebispo Díli

O arcebispo de Díli considera importante repensar o papel e missão da igreja católica em Timor-Leste, depois dos anos em que foi refúgio e voz da luta pela independência, apostando na reevangelização e numa maior proximidade aos cidadãos.

“Trata-se de repensar que igreja, que tipo de igreja queremos sonhar para Timor-Leste. Para nos ajudar a compreender a missão e o papel da igreja”, afirmou o arcebispo Virgílio do Carmo da Silva, em entrevista à Lusa.

“Em Timor há essa igreja hierárquica e estamos a procurar desmantelar essa estrutura, para procurar uma igreja de mais proximidade e mais participativa. uma igreja em que possamos sentir que todos participam na vida da igreja. Não ver a igreja como propriedade do bispo ou do padre, mas ver a igreja que é de todos nós”, disse.

A oportunidade de pensar o futuro, explicou o arcebispo, tem como mote os 75 anos da formação da diocese e a oportunidade de usar os próximos anos para reconfigurar a missão e papel da igreja, “a pensar no centenário”.

Um programa amplo de debate foi lançado em outubro do ano passado e, como tudo, foi afetado pela pandemia da covid-19, mas há uma equipa de estudos que vai promover encontros, debates e investigações sobre “a necessidade da igreja e preparar a igreja” para o futuro.

“Quando se pensa em que Igreja queremos para o futuro, não podemos dar uma resposta de dois minutos. Mas estou ciente da importância e da preocupação de fazer esse debate, definir que igreja queremos ser”, disse o arcebispo Virgílio do Carmo da Silva, em entrevista à Lusa.

“Vamos ter oportunidade e espaço para debater e conhecer isso, e traçar os planos a longo prazo. Esse debate está a começar. Queríamos ter os primeiros grandes encontros este ano, mas com a pandemia não foi possível.

Central na cultura e sociedade timorense, a Igreja Católica no país tem vindo a atravessar várias fases, passando por períodos de trabalho missionário e de evangelização, por fases como a proteção e o refúgio durante a ocupação indonésia e por um trabalho de caridade e assistência em setores chaves como a educação e a saúde.

Fases que levaram também a que a Igreja tivesse uma voz política pública de maior ou menor intensidade, com os anos da luta contra a ocupação Indonésia, até 1999, a verem os líderes religiosos a ser voz da população nos palcos internacionais.

Depois, nos primeiros anos desde a restauração da independência, a igreja manteve essa voz política pública, com os bispos a intervirem regularmente no debate político, situação que se foi alterando progressivamente.

Hoje a influência da igreja católica continua a vincar-se, mas as declarações políticas, pelo menos publicamente, são menores e mais contidas.

O arcebispo de Díli diz que não há instruções ou regras do Vaticano sobre esse papel político, mas enfatiza que ele próprio assumiu funções com a “ideia muito clara” de que se tinha ultrapassado o papel em que a igreja era “voz das pessoas, representava estas aspirações do povo”.

“Agora, como nação independente, na igreja temos a dificuldade de exercer este papel. Alguns dizem que a igreja é muito silenciosa. Mas temos que saber o nosso papel. Há um Estado, com instituições, que representa o povo e a igreja deve ser muito mais prudente”, disse.

“Agora também temos três dioceses e antes de aparecer publicamente como voz da igreja, a CET tem que ter uma voz única, para não criar ambiguidade. Sempre nos consultamos mutuamente antes de afirmar qualquer posição. Exercemos mais prudência”, sublinhou.

A igreja mantém a sua voz, mas procura “colaborar com todas as forças do país” e, sublinha o arcebispo citando declarações de D. Policarpo quando esteve visitou o país depois da ocupação, “agora a igreja de Timor tem que aprender a sair da política”.

“Os padres ainda sentem essa vontade de falar e de ter voz política. Mas a igreja tem que saber qual o papel mais importante neste momento. E neste momento, o mais importante é a reevangelização, uma nova evangelização para consolidar a fé do povo de Timor”, disse.

“Durante o tempo da guerra foi mais fácil ser católico por causa da política. Mas as preparações para compreender as exigências da fé são muito poucas. Daí que quando assumi o cargo tenha definido como objetivo do meu episcopado consolidar a fé da Igreja Católica em Timor-Leste. E quero contribuir para isso”, enfatizou.

Sobre o tradicional papel de apoio aos cidadãos que, enfatiza, se nota mais em momentos de crise como as cheias de abril, Virgílio do Carmo da Silva, considera que isso “faz parte da realidade da vida da igreja” e que deve continuar.

“Na formação insistimos nisto: um pastor tem que ter um coração para saber as necessidades da população”, afirmou.

Daí que, depois das cheias, tenha encorajado todas a igreja a aproveitar para “conhecer a realidade das famílias e estar presente e apoiar” e mesmo os padres mais novos “estão a entrar nessa realidade” de estar ao lado da população.

“Isso tem que ser uma bandeira da igreja católica que é indispensável da nossa missão. Educação e apoio social são as duas coisas indispensáveis da missão aqui em Timor-Leste”, afirmou.

ASP // PJA

By Impala News / Lusa

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