O que leva uma trabalhadora da Google a deixar Londres e vir para Lisboa começar o seu negócio?

Clara Armand-Delille deixou para trás empregos nos gigantes internacionais para começar a sua empresa e Lisboa foi o «sítio perfeito para dar o grande salto».

O que leva uma trabalhadora da Google a deixar Londres e vir para Lisboa começar o seu negócio?

Clara Armand-Delille deixou para trás empregos nos gigantes internacionais para começar a sua empresa e Lisboa foi o «sítio perfeito para dar o grande salto».

Aos 36 anos, Clara Armand-Delille tem uma carreira de prestígio na área de Relações Públicas. Depois de ter vivido em Nova Iorque, Paris e Londres, Clara escolheu Lisboa para começar a sua própria empresa. Mas o que leva uma ex-trabalhadora da Google, sem qualquer ligação a Portugal, a deixar as grandes capitais e os gigantes multinacionais para vir para este cantinho da Europa «dar o grande salto» na sua carreia?

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Foi durante a Web Summit de 2018, que o Portal de Notícias da Impala encontrou duas cadeiras longe da confusão para conhecer esta mulher que vê a nossa capital como um pequeno «oásis de oportunidades», que se encontra de baixo do «’radar’ do mundo».

Mas para percebermos o que levou Clara a Lisboa, embarcámos numa viagem pelo percurso profissional da Relações Públicas, até aos dias de hoje.

 «Trabalhar para a Google foi uma oportunidade incrível»

Com dupla nacionalidade- francesa e americana-, Clara cresceu já por si num ambiente multicultural, que acabou por ser a única realidade que conhece. Durante a sua infância, Clara viveu na Normandia, em França. A sua viagem pelo mundo começou quando foi para os Estados Unidos para se licenciar em Ciência Política. Depois de ter concluído o ensino superior, acabou por se «apaixonar» por Relações Públicas e decidiu «mergulhar» num mestrado da área em Paris e, foi na cidade das luzes, que teve o seu primeiro emprego na área.

Passado um ano, aos 25, Clara foi recrutada pela Google Books [um serviço da Google que procura e transfere livros e revistas em conteúdos digitais guardados numa base de dados] e pela Google News [um serviço da Google que agrega notícias de todo o mundo] e foi trabalhar para os escritórios da empresa em Londres para «coordenar campanhas por toda a Europa». «Trabalhar para a Google foi uma oportunidade incrível», recorda Clara com um grande sorriso.

Ao fim de quatro anos, deixou a Google e foi trabalhar também como Relações Públicas para a Accel Parthers [uma empresa que desenvolve startups em todas as fases de crescimento], durante um ano. Mais tarde, entrou para a iZettle, uma empresa sueca de serviços de pagamento para pequenos negócios. Hoje em dia, a empresa foi comprada pela PayPall.

«Ajudei a lançar a empresa [iZettle] no México e no Brasil, enquanto coordenava parte das comunicações e operações na Europa», explica.

No entanto, Clara percebeu que tinha chegado a um ponto na sua carreira no qual «já não estava a aprender e evoluir tanto quanto gostava».

«A certa altura comecei a avaliar para onde é que a minha carreira me estava a levar e para onde queria ir. Comecei a focar-me na direção que queria para o meu percurso profissional e percebi o próximo passo era acreditar em mim e dar um salto por mim própria. Então, comecei a estar atenta a oportunidades que poderia agarrar. Queria me afastar das grandes empresas e começar algo meu», relembra.

«Pode-se comparar Lisboa a um solo fértil para quem quer arriscar»

O amor de Clara por Portugal nasceu muitos anos antes de se ter mudado para Lisboa, em 2013. A empreendedora veio pela primeira vez ao nosso país numa viagem de trabalho, em 2009, quando ainda estava na Google.

«Vim várias vezes a Portugal, porque estávamos a ‘apagar alguns fogos’ no campo das Relações Públicas. Na altura, algumas publicações queriam processar a Google News e Google Books por questões ligadas a direitos de autor e Portugal era um dos dos países dessas publicações. Foi assim que descobri Lisboa e desde o primeiro momento que adorei», garante.

Depois das visitas ao nosso país em trabalho, Clara deu por si a escolher Portugal para passar férias. A empreendedora sentia que aqui «restabelecia energias» e fugia do «barulho e confusão» do seu dia-a-dia. «É de lembrar que isto foi antes de Lisboa estar no ‘radar’ do mundo. Aqui encontrei silêncio, calma e um bom ambiente», garante.

Entretanto, Clara percebeu que o seu «momento» tinha chegado e que estava na hora de dar asas a um projecto só seu e Lisboa era o «sítio perfeito» para o fazer.

«Quando decidi que estava pronta para dar aquele passo na minha carreira vi que Lisboa também estava a dar um grande saltoem termos de empreendedorismo e imobiliário e achei que seria o sítio perfeito para começar a próxima fase da minha vida», esclarece.

E em 2013, Clara já estava a viver em Lisboa a trabalhar como freelancer. Em 2016, fundou a sua empresa de uma pessoa chamada Third Eye Media [uma empresa de estratégia e consultoria de comunicação para startups]. Hoje, a empresa que chefia já conta com uma equipa de quatro pessoas «multiculturais». Tem maioritariamente clientes de países como Espanha, Itália, França, Rússia, Reino Unido, Alemanha e Estados Unidos.

Para a empreendedora Lisboa «pode-se comparar a um solo fértil para quem quer arriscar», um «sítio onde o empreendedorismo é fácil». O baixo custo de vida em Portugal, quando comprado com outros países europeus também é um factor que pesa, não escondeu Clara. [Portugal tem um custo de vida 6 vezes mais barato que Londres, atualmente]. Apesar de confessar ter tido de se ajustar «às tradições culturais latinas», Clara explica que o facto de saber espanhol e francês a ajudou também a ter uma fácil adaptação à língua portuguesa.

«Primeiro acho que o lifestyle de Lisboa é óptimo. É relaxado mas como valores fortes. Permite-nos trabalhar com uma mente limpa e clara. Foi isso o que mais me cativou aqui, foi conseguir ter um espaço onde conseguisse dar voz à minha mente e, acima de tudo, ouvi-la. Nunca fui tão criativa, nem nunca vi tanto o sol como hoje», afirma.

Com ideias de «ficar cá permanentemente», Clara não esconde que nem sempre é fácil viver no estrangeiro e que por momentos duvidou se Lisboa tinha sido a melhor escolha para si. «Houve alturas em que me questionei por que é que tinha vindo para Lisboa. Mas desde que a Web Summit veio para cá, já ninguém me pergunta por que é que me mudei para Lisboa».

«A verdade é que ainda vivemos num sistema muito desigual para homens e mulheres no mundo inteiro e Portugal não foge à regra»

Apesar de Portugal ser «um paraíso» para Clara, o nosso país não deixa de ter alguns aspectos que para a empreendedora podiam ser melhorados, especialmente no que diz respeito a questões sociais.

«O fosso salarial entre homens e mulheres ainda é enorme. Ainda é surreal. Se olharmos para Portugal, os números são igualmente maus», destaca.

De acordo com os dados do Eurostat, Portugal foi um dos poucos países europeus que registou nos últimos cinco anos um aumento da disparidade salarial. No nosso país os homens ganham mais 17,5% do que as mulheres.

Clara também aponta a falta da presença de mulheres e pessoas de diferentes etnias em cargos de liderança. «Para um país com uma população tão diversa, especialmente no que diz respeito às comunidades das antigas colónias, não vejo representação desta população em cargos de topo», acrescenta.

Apesar de ser confrontada com várias questões de género enquanto mulher, Clara salienta que mesmo tendo a sua empresa sediada em Lisboa, trabalha para todo o mundo, o que faz com que o seu ambiente de trabalho seja extramente globalizado e dominado por ideias progressistas, acabando por distanciar-se de desigualdades.

«Gostava de dizer a outras mulheres para não hesitarem no que diz respeito a questões profissionais. Oiçam a vossa intuição. Quando sentirem que alguma coisa não está bem, o mais certo é terem razão. E em sempre que acharem que merecem algo, vão atrás disso e não desistam», declara.

Texto: Mafalda Silva | Fotos: Cedidas por Clara Armand-Delille

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