“Enseada” põe em cena no Teatro D. Maria a (im)possibilidade de se falar para se entender

A possibilidade de duas pessoas falarem uma com a outra e conseguirem ou não entender-se é o tema central da peça “Enseada”, que quinta-feira chega à sala Estúdio do Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa.

“Enseada” põe em cena no Teatro D. Maria a (im)possibilidade de se falar para se entender

A possibilidade de duas pessoas falarem uma com a outra e conseguirem ou não entender-se é o tema central da peça “Enseada”, que quinta-feira chega à sala Estúdio do Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa.

A peça é “assim como uma metáfora dos dois lugares que cada um habita”, disse à agência Lusa Miguel Castro Caldas, autor do texto que também dirige o coletivo de atores que criou o espetáculo.

A ação de “Enseada” centra-se em duas pessoas que, apesar de estarem a dizer coisas simples uma à outra, acabam por não conseguir entender-se, explicou Miguel Castro Caldas, acrescentando que, na maior parte das vezes, os atores não conseguem estabelecer comunicação nesta peça.

“É quase sempre isto. Talvez haja um momento do espetáculo em que não é isto, mas eu não [o] queria revelar”, frisou.

Pensar a dificuldade de “ver a felicidade”, entendendo-se por felicidade “a sensação de que as coisas estão a correr bem, de que as pessoas estão bem umas com as outras e que conseguem comunicar bem” foi, segundo Miguel Castro Caldas, o ponto de partida para “Enseada”.

“Porque é que a felicidade resiste tanto a ser representada nas artes?”, questionou-se o autor do texto, para, de imediato, responder: “Parece que há uma dificuldade muito grande na arte de representar a felicidade, e então achámos que o teatro podia ser um meio interessante para trabalhar esta questão”.

O coletivo que concebeu e interpreta a peça acabou, porém, por chegar à conclusão de que “é impossível pedir a um ator que finja que está feliz”.

“É daquelas coisas que se percebe logo que não é verdade, que se está a fingir. É como se a felicidade resistisse muito a ser representada”, sublinhou.

Face à dificuldade de representar a felicidade, a equipa caminhou então “quase em sentido contrário”, questionando-se sobre o que impede os seres humanos de conseguirem conversar e entender-se, disse.

Muitas vezes, a explicação reside no facto de “levarmos demasiado a sério a linguagem”, ao passou que outras vezes se explica por “resistirmos a contextualizar o modo como as palavras surgem, e depois interpretamos as palavras como se estivessem noutro contexto”, observou.

“Mas, no fundo, há uma condição mesmo necessária para as pessoas poderem conversar e entenderem-se, que é estarem as duas interessadas nisso”, sublinhou, acrescentando que a inexistência de comunicação muitas das vezes se deve ao facto de uma das partes não estar interessada em que tal aconteça.

“Quando um não quer, dois não existem” é assim um lema transversal ao espetáculo, estreado em junho último, em Guimarães, no Festival Gil Vicente, e que agora chega à sala Estúdio do D. Maria II numa “versão melhorada”, acrescentou o autor do texto, responsável pela direção da peça.

Também o cenário — concebido para uma antestreia em maio passado, no Cartaxo, no âmbito das Residências Artísticas dos Materiais Diversos — tem ligeiras alterações às primeiras apresentações. É composto por dois painéis, como se fossem duas paredes, com uma entrada no meio, que giram (um painel pela frente e outro por trás).

A ação desenrola-se umas vezes atrás dos painéis, outras, fora dos painéis, o que permite aos atores estabelecerem constantemente planos diferentes.

Esta possibilidade reforça o texto, “um diálogo que serve como premissa e depois é repetido imensas vezes, às vezes com algumas variantes”, explicou Miguel Castro Caldas.

Estabelece-se um jogo que “é uma espécie de repetição incessante, com planos diferentes em contextos diferentes”, disse o diretor.

“Às vezes são os painéis que estabelecem planos diferentes, outras vezes são os movimentos dos atores”, concluiu Miguel Castro Caldas.

“Enseada” é uma criação de Élvio Camacho, Márcia lança e Marta Félix – que também interpretam – Filipe Pinto e João Caldas, e está em cena até 15 de dezembro. Tem récitas às quartas-feiras e sábados, às 19:30, às quintas e sextas-feiras, às 21:30, e, aos domingos, às 16:30.

O espaço cénico é de Sara Franqueira, os efeitos especiais, de Nuno Tomás, os figurinos, de Marta Félix e, a luz, de Cristóvão Cunha. Na assistência à cenografia está Joana Sabogueiro enquanto Ana Matoso apoiou a dramaturgia da peça, que é uma produção conjunta do Teatro Nacional D. Maria II e do Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães.

Na quinta-feira, às 19:00, antes do espetáculo, serão lançados, no átrio do D. Maria II, dois livros de Miguel Castro Caldas. “Enseada”, editado pela Douda Correria, e “Se eu vivesse tu morrias e outros textos”, com edição da Imprensa Universitária de Coimbra.

“Se eu vivesse tu morrias”, texto cujo título reproduz parte do epitáfio de Robespierre, estreou-se em dezembro de 2016, na Culturgest, em Lisboa. No ano seguinte esteve em cena no Teatro Académico Gil Vicente, em Coimbra, e, em fevereiro de 2018, foi reposta na Culturgest.

No final da primeira representação de “Enseada”, em Lisboa, a equipa de atores conversa com o público.

CP // MAG

By Impala News / Lusa

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