Do “Pantera Negra” à redemocratização tecnológica, Afrofuturismo quer unir Brasil e PALOP

Várias organizações brasileiras estão a apostar no Afrofuturismo, movimento que tem como exemplo a sua filosofia do filme “Pantera Negra” onde África assume o protagonismo através de uma forte vertente tecnológica, querendo unir o Brasil aos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP).

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Do “Pantera Negra” à redemocratização tecnológica, Afrofuturismo quer unir Brasil e PALOP

Várias organizações brasileiras estão a apostar no Afrofuturismo, movimento que tem como exemplo a sua filosofia do filme “Pantera Negra” onde África assume o protagonismo através de uma forte vertente tecnológica, querendo unir o Brasil aos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP).

Em entrevista à agência Lusa a partir de Salvador, considerada a cidade mais africana fora de África, o empresário brasileiro Paulo Rogério Nunes, um dos impulsionadores do Afrofuturismo no Brasil, explicou que a proposta é questionar, propor e imaginar a participação negra na construção do futuro.

“O afrofuturimo é um movimento que é internacional, tem várias fases e faces. É estético, porque tem muito a ver com as artes visuais, com o cinema, banda desenhada. É cultural porque trabalha com a ideia de raiz africana, pré-colonial e de quando África liderou a tecnologia por muito tempo, e ele é também tecnológico, ao representar o espírito do tempo em que vivemos, em que a tecnologia é cada vez mais compartilhada e acessível a todo o mundo”, disse Paulo Rogério Nunes.

Para quem não está familiarizado com o conceito de Afrofuturimo, o empresário, que é também professor e publicitário, deu o exemplo do filme de super-heróis da Marvel “Pantera Negra” (2018) como a representação perfeita.

“O filme tem uma expressão ficcional que representa toda a filosofia afrofuturista: tem ficção científica imaginada no futuro, onde África consegue ter um protagonismo muito forte, é líder em tecnologias utópicas, as pessoas vivem em comum com a natureza. Então, é bem interessante essa expressão pop do afrofuturismo representada no Pantera Negra, e que o divulgou numa maior dimensão para pessoas que não tinham essa noção”, avaliou.

Além do cinema, este movimento tem crescido fortemente no Brasil em áreas como literatura, música e tecnologia. E é nessa vertente tecnológica que Paulo Rogério Nunes tem intervindo diretamente, através da Vale do Dendê, uma empresa que acelera e investe em ‘startups’ da área criativa e digital em Salvador, e da qual é cofundador.

No mês passado, e repetindo a experiência de anos anteriores, a Vale do Dendê, em parceria com a companhia de tecnologia da informação Qintess, realizou o “Festival Afrofuturismo 2021”, num modelo totalmente ‘online’ devido à pandemia, e que permitiu a “conexão e partilha de conhecimento” com países africanos de língua portuguesa como Angola, Moçambique e Cabo Verde.

Paulo Rogério Nunes acredita que o Afrofuturismo pode unir os PALOP e o Brasil em aspetos que vão além da língua e das questões históricas, relatando ter ficado bastante surpreendido com alguns pontos que descobriu durante o festival, como a evolução tecnológica de Cabo Verde.

“O Brasil é um pouco desconectado dos países africanos de língua portuguesa, por questões históricas, mas precisamos de nos ligar mais. Os afrodescendentes do Brasil, que ficaram tanto tempo desconectados de África, cada vez mais se querem conectar. Acho que o festival foi uma grande conversa sobre isso, estabelecendo pontos, e que foi uma grande surpresa dos dois lados”, afirmou o professor.

“Ficamos muito surpreendidos de ver, por exemplo, como Cabo Verde aparentemente se está a reinventar muito fortemente nessa área de tecnologia, com programas de atração de nómadas digitais, ou seja, profissionais de tecnologia que vivem viajando e trabalhando pelo mundo, e estão a criar ‘startups’ bem interessantes. No Brasil, não tínhamos tanto conhecimento do que estava a acontecer em África e nas comunidades africanas em Portugal, e vice-versa”, acrescentou.

Apesar de salientar ter “pouco conhecimento” acerca dessas comunidades em Portugal, Paulo acredita que o cenário pode mudar através de uma maior comunicação e intercâmbio.

No evento foram ainda abordados problemas estruturais no Brasil, como o racismo, que, na visão do empresário, pode ter uma “contribuição importante” do Afrofuturismo.

O racismo “é algo estrutural e não tem uma solução única que o possa resolver, mas acho que o Afrofuturismo traz uma contribuição importante, no sentido em que pode fazer o mundo pensar essa questão de ‘quem pode imaginar o futuro?’, se o futuro apenas pode ser imaginado por um grupo humano, ou se todas as pessoas podem imaginar o futuro”, advogou o docente.

“Há também a redemocratização da tecnologia, que o Afrofuturismo traz, onde negócios podem ser criados com poucos recursos, assim como a ideia de que as pessoas negras de origem africana podem ter protagonismo na contribuição estética para o mundo. Este movimento pode, sim, contribuir para diminuição das desigualdades raciais”, frisou.

Paulo Rogério Nunes defende assim que é possível restaurar o protagonismo e a liderança que África teve no período pré-colonial, em áreas como ciência, matemática, astronomia e em outras temáticas onde as civilizações negras foram pioneiras.

Para um futuro próximo, o publicitário brasileiro tem o objetivo de divulgar ainda mais Salvador, capital estadual da Bahia e cidade com mais afrodescendentes do país sul-americano, como “o ‘hub’ [concentrador] de atração de startups africanas ou afrodescendentes no mundo”.

MYMM // PJA

By Impala News / Lusa

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