Covid-19: Passageiros ainda resistem a máscaras no centro de Moçambique apesar de aumento de casos

Entre ausência de distanciamento e abraços imprevistos nos solavancos na viagem na carrinha ‘my love’, Isaias Matchesso afirma que o maior desafio é lidar com passageiros que “resistem ao uso obrigatório da máscara”, quando Moçambique regista novos recordes de covid-19.

Covid-19: Passageiros ainda resistem a máscaras no centro de Moçambique apesar de aumento de casos

Covid-19: Passageiros ainda resistem a máscaras no centro de Moçambique apesar de aumento de casos

Entre ausência de distanciamento e abraços imprevistos nos solavancos na viagem na carrinha ‘my love’, Isaias Matchesso afirma que o maior desafio é lidar com passageiros que “resistem ao uso obrigatório da máscara”, quando Moçambique regista novos recordes de covid-19.

O cobrador de 32 anos diz, em declarações à Lusa, que quem trabalha nestes transportes vive “com medo, porque coisa que é falada por muita gente é coisa séria”, em alusão à propagação do coronavírus SARS-CoV-2 no meio do “desleixo de quem viaja empilhado” na carrinha de caixa aberta para o transporte de passageiros em Manica, no centro de Moçambique, e que são conhecidos como ‘my love’ (meu amor) porque os passageiros têm de se abraçar para não cair.

Moçambique está a registar um novo recorde de casos e mortes associadas ao novo coronavírus desde finais de julho e as autoridades de Saúde estimam que o pico da terceira vaga venha ser atingido na próxima semana, enquanto o país totaliza agora mais de 137 mil casos de infeção e 1.690 mortes associadas à covid-19.

Matchesso é um dos poucos cobradores que já foi vacinado no terminal de “my loves” no bairro 7 de abril, um subúrbio de Chimoio, a capital de Manica, e viaja pendurado na cabine da viatura que ele diz ter reduzido a lotação para a metade, para conter a propagação da doença.

“O carro não encheu, antes enchia, mas agora reduzimos a sobrelotação por causa do coronavírus. Podemos levar 18 ou 20 passageiros [contra os anteriores 25 passageiros]”, disse Isaias Matchesso, que não usa máscara e viaja encapuzado para evitar a poeira numa estrada de pó vermelho de argila.

No terminal onde partem os “my love”, os passageiros são obrigados a lavar as mãos e a desinfetar com álcool e gel disponibilizados pelos transportadores durante o embarque.

As medidas de higiene observadas no embarque são logo dispensadas quando a viatura entra em marcha, durante a luta pela firmeza e são inevitáveis os abraços e apertos que até permitem sentir a respiração e o pulsar do coração do próximo. Nesta altura, muitos também dispensam as máscaras supostamente para conseguir ter uma boa respiração.

“Nós avisamos para que quando chegarmos nos trânsitos temos que pôr máscara, tem outros que negam pôr máscara, mas quando chegam nos postos de controlo são descarregados” disse à Lusa Júlio Francisco, um outro cobrador que ainda não aderiu à campanha de vacinação “por falta de tempo”.

As autoridades municipais forçaram a redução da lotação das viaturas de caixa aberta para permitir o distanciamento “quase impossível” entre os passageiros nas rotas Chimoio — Macate, Boavista, Marera e Mutocoma.

“Aqui o carro tem a meta de carregar 15 a 20 passageiros, antes carregava 25 a 30 passageiros, mas por causa da doença estamos a reduzir a lotação dos carros”, dependendo do tamanho da viatura, explicou à Lusa Agostinho Cadeado, um controlador de terminal.

A medida foi assumida por motoristas, mas admitem que a redução tem contribuído para a soma de prejuízos por o número de passageiros não cobrir os custos de combustível.

“Não posso levar poucos passageiros porque não dá lucro, em média esta viatura leva 35 passageiros como lotação mínima e 40 máxima”, mas agora transporta a metade da capacidade, disse à Lusa Juvêncio João, um motorista local.

Apesar de cumprir com todas as medidas de higiene durante o embarque, Juvêncio João, admite que se sente incapaz de providenciar o mais importante, o distanciamento: “É impossível, do jeito que vens, é difícil, se fosse um carro fechado ou minibus, mas no ‘my love’ é difícil ter o distanciamento”.

Um outro motorista observa que mais que a lotação e o distanciamento, a ignorância e a resistência de alguns passageiros às medidas de prevenção são outros obstáculos na luta contra a pandemia.

“Não é fácil porque a pessoa é muito difícil, o passageiro é muito complicado. Algumas vezes as pessoas não acreditam [na doença], põe máscara, mas quando sobe no carro as vezes tira e às vezes torna-se complicado”, apesar de ser “muito importante” e para o “benefício” de todos, observou Domingos Fernandes, um motorista local, que também ainda não aderiu a campanha de vacinação massiva para aquele grupo alvo.

As estatísticas da saúde em Manica indicam que 2.477 pessoas (de um total de 4.043), incluindo motoristas, cobradores, taxistas de motos e bicicletas, já foram vacinadas na campanha de duas semanas que arrancou a 4 de agosto.

“Os cobradores de chapas ‘my Love’ têm o mesmo tratamento que os taxistas de motos, de bicicletas e os cobradores dos transportes convencionais e fazem parte do grupo alvo que foi alistado e também alvos desta campanha de vacinação”, disse à Lusa Nuno Horácio, responsável do departamento de saúde pública nos serviços provinciais de saúde de Manica.

No total, nesta segunda fase de vacinação, 31.264 pessoas já foram vacinadas na província de Manica, num universo de 100.735 pessoas por alcançar durante os 15 dias da campanha, que envolve brigadas móveis em zonas sem acesso a hospitais.

AYAC // JH

By Impala News / Lusa

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