Covid-19: Ex-PM timorense considera “política de avestruz” não admitir transmissão comunitária

O ex-primeiro-ministro timorense Mari Alkatiri considerou hoje “política de avestruz” o facto de as autoridades rejeitarem que o país tem já transmissão comunitária da covid-19, e que é essencial alertar a população para a seriedade da situação.

Covid-19: Ex-PM timorense considera

Covid-19: Ex-PM timorense considera “política de avestruz” não admitir transmissão comunitária

O ex-primeiro-ministro timorense Mari Alkatiri considerou hoje “política de avestruz” o facto de as autoridades rejeitarem que o país tem já transmissão comunitária da covid-19, e que é essencial alertar a população para a seriedade da situação.

“Não podemos continuar com a política de avestruz, escondendo a cabeça e ficando com o rabo de fora quando afirmamos que ainda não existe transmissão comunitária”, escreveu Mari Alkatiri, responsável do maior partido do Governo, a Fretilin, na sua página no Facebook.

“O quê é que pretendemos esconder? Temos vergonha de dizer a verdade? Porquê insistimos numa tese que não convence”, questionou.

A transmissão local define casos de contágio local através de um caso importado identificado, e a transmissão comunitária significa casos positivos detetados na comunidade que não tenham tido contacto com pessoas que viajaram ou que estivessem positivas.

Os comentários de Mari Alkatiri surgem numa altura em que duas zonas do país estão sob cerca sanitária, entre elas a capital, Díli, onde se aplica também o confinamento obrigatório, medidas que se alargam na terça-feira aos municípios de Baucau e Viqueque.

Timor-Leste regista diariamente desde o início da semana um recorde de casos ativos, com 72 casos detetados na capital e quase 100 ativos, passando de apenas dois focos da doença para 22 em apenas sete dias.

A maior parte dos casos de Díli foram detetados em rastreios a contactos, que começaram depois da deteção de uma paciente positiva em Baucau, que tinha viajado de Díli e residia no suco de Madohi, na parte ocidental da cidade.

Progressivamente foi sendo alargado o leque de contactos e detetados cada vez mais focos, ainda que as explicações para alguns desses focos não tenham sido totalmente clarificadas.

Um desses exemplos foi o foco detetado no bairro de Bebonuk, no mesmo dia que os casos de Madohi, mas neste caso em vez de ser por rastreio de contactos deveu-se a testes aleatórios a trabalhadores do saneamento básico.

Ainda que oficialmente não haja clareza na origem desse primeiro caso na zona, o CIGC sugeriu que poderia dever-se a trabalhadores destacados na limpeza das quarentenas.

Ao mesmo tempo e ao longo da semana, houve várias ocasiões em que se detetaram casos não por rastreio de contactos, mas no decurso do processo de vigilância sentinela, ou seja, testes a pessoas que se apresentaram em centros médicos com sintomas que poderiam ser da covid-19.

Há pelo menos duas circunstâncias dessas, no centro de saúde do bairro Formosa e no Hospital Nacional Guido Valadares (HNGV).

Especialistas médicos timorenses e internacionais ouvidos pela Lusa consideram que o número de casos detetados e a natureza dispersa de alguns deles, sem elos claros estabelecidos “evidenciam que se está perante transmissão comunitária”, categoria de transmissão que tem sido sempre considerada pelas autoridades timorenses como de maior risco para o país.

Questionado hoje pela Lusa sobre este aspeto, Rui Araújo, porta-voz da Sala de Situação do Centro Integrado de Gestão de Crise (CIGC), disse que apesar de alguns dos casos ativos terem sido detetados em vigilância sentinela e não em rastreio de contactos não se pode ainda considerar a situação como de transmissão comunitária.

“Quando o fio da meada de contactos desaparecer completamente e começarem a aparecer casos de forma espontânea em várias partes do país, começou a transmissão comunitária”, afirmou.

“Para já ainda se pode estabelecer o fio da meada entre os casos”, disse ainda.

Mari Alkatiri rejeita essa análise e, em declarações à Lusa, considerou que se está a “pretender negar o que já é evidente” com casos a ocorrem em três municípios, sem que todos possam ser relacionados com um primeiro caso.

“É importante transmitir para as pessoas que a situação é séria e que há a transmissão na comunidade, para as pessoas se precaverem, se não pensam que não vai acontecer, porque acham que os casos estão ligados a este bairro ou esta instituição”, disse.

“Precisamos do apoio e compreensão do nosso povo para combater e prevenir melhor esta pandemia e isso só se faz com um retrato real, sem medo, sem receio, de assumir com coragem o cenário real”, sublinhou.

Arvind Mathur, responsável da Organização Mundial da Saúde (OMS), cujas categorias de classificação de transmissão servem de base à análise timorense, também rejeita que se possa dizer que há já transmissão comunitária no país.

Em declarações à Lusa disse que a situação no país é de “casos, predominantemente limitados a focos bem definidos, relacionados por contactos em termos de tempo, localização e geografia comuns”.

Mesmo nos casos em que os laços não são imediatamente evidentes, isso pode dever-se à incapacidade, através de rastreio, de detetar essa relação, e “por isso permanece uma situação de focos de casos”.

Além disso, afirmou, num cenário como noutro, as medidas de saúde a adotar, em termos preventivos, são idênticas e Timor-Leste, nota, foi já até além do exigido nesta altura, por exemplo com as medidas que adotou de confinamento total.

“Esperamos que as pessoas continuem a seguir as diretrizes, medidas e recomendações que todos estamos a comunicar. Houve algumas medidas de antecipação tomadas e há também a necessidade de responsabilidade individual”, frisou.

Alterar a categoria da transmissão em Timor-Leste, disse, ocorrerá com base em análise científica, dentro dos vários níveis previstos pela OMS.

 

ASP // VM

By Impala News / Lusa

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