Coronavírus | Portugueses que vivem em Macau obrigados a mudar rotinas

O risco de transmissão do novo coronavírus obrigou os portugueses residentes em Macau a mudar as rotinas: o medo de que faltassem máscaras e desinfetantes levou-os a importar produtos, a prevenção mandou-os para casa, onde agora trabalham.

Coronavírus | Portugueses que vivem em Macau obrigados a mudar rotinas

Coronavírus | Portugueses que vivem em Macau obrigados a mudar rotinas

O risco de transmissão do novo coronavírus obrigou os portugueses residentes em Macau a mudar as rotinas: o medo de que faltassem máscaras e desinfetantes levou-os a importar produtos, a prevenção mandou-os para casa, onde agora trabalham.

As crianças, sem aulas, estão em casa, assim como muitos colaboradores de empresas que passaram a trabalhar à distância. E o perigo de contágio de um vírus fatal, que já causou quase meio milhar de mortos, com Macau a identificar já 10 casos de infeção, conseguiu quebrar a resistência lusa em usar a máscara, uma prática habitual entre a população asiática.

“Quando cheguei ao escritório, na segunda-feira, a primeira coisa que disse aos meus colegas portugueses foi: ‘bem, tinha de vir uma destas para os ‘tugas’ usarem todos máscara'”, afirmou à Lusa Madalena Perestrelo, advogada estagiária, há quase três anos a residir em Macau. “Os chineses usam, ou costumam usar, quando alguém está doente, mas os portugueses não gostam muito de aderir à questão das máscaras”, sublinhou a portuguesa de 28 anos.

LEIA DEPOIS
Criança morre sete dias depois de vencer batalha contra a leucemia

Limitação de sair à rua causa desconforto

Os quatro filhos de Filipe Regêncio Figueiredo, também advogado, mas há oito anos no antigo território administrado por Portugal, aceitaram bem a máscara, até porque para “eles é uma novidade”. Já a “limitação de saídas à rua” causa algum desconforto, sobretudo porque muitos dos espaços públicos estão fechados, como parques e jardins, acrescentou o português de 41 anos.

Esse constrangimento, essa limitação, reiterou à agência de notícias, “poderia ser suavizada, pelo menos no que diz respeito aos parques, se estivessem abertos”, nem que fosse “para se dar lá uma volta de cinco minutos, principalmente para quem crianças, (…) para não ficarem o tempo todo fechadas em casa”.

Se em termos profissionais a vida de Filipe não sofreu grandes sobressaltos, “está quase tudo na mesma” já que só as audiências de julgamento foram suspensas, com exceção das consideradas urgentes, “em termos pessoais e familiares, aí a rotina mudou radicalmente”, com o encerramento das escolas.

Escolas encerradas

Os professores têm enviado trabalhos de casa para os filhos fazerem em casa, “através de plataformas virtuais, como é o caso do Google Classroom, ou por e-mail”, com os professores de educação física a ‘prescreverem’ inclusive exercícios. “Felizmente a minha mulher, sendo funcionária pública, (…) está a trabalhar também a partir de casa e, nesse aspeto, consegue dar um apoio que, no caso de estarmos os dois a trabalhar [fora] seria impossível dar às crianças”, apontou. “Esta é a maior alteração em termos de vida”, frisou.

Zélia Almeida, terapeuta da fala, de 27 anos, tal como Madalena, está a trabalhar a partir de casa. Perde-se eficácia e a possibilidade de trabalhar em equipa, admitiu, mas, face à situação excecional, é “o possível” para garantir que se “passem estratégias aos pais das crianças, de forma a haver um trabalho contínuo em contexto familiar”.

Máscaras ‘importadas’ de Portugal

A portuguesa, há pouco mais de um ano em Macau, lembrou que assim que as autoridades anunciaram medidas excecionais para combater o surto, o receio de que as máscaras rapidamente desaparecessem das prateleiras levou-a a pedir que uma amiga trouxesse de Portugal meia centena. “Já tenho ‘stock'”, resumiu.

Na passada semana conseguiu escapar ao cancelamento de voos nas Filipinas, onde outros amigos ficaram retidos, comprou, por prevenção, “desinfetantes, pequeninos, (…) porque em Macau já não há, está tudo esgotado”. Isso, “infelizmente, cria algum pânico nas pessoas, porque vai-se aos supermercados (…) e não há desinfetantes, não há álcool, mesmo para [fazer] as limpezas”, lamentou.

Madalena também ‘importou’ desinfetante para as mãos nas Filipinas, mas hoje lamenta que tenha sido apenas “uma embalagenzinha”, porque “não tinha noção de que iria ser tão necessário”. Agora, “é até acabar [a embalagem]”, disse, conformada.

Em termos profissionais, os três anos que passou em Macau ‘dizem-lhe’ que esta é uma situação inédita, com alguma incerteza em relação ao futuro. No escritório para o qual trabalha foi-lhe transmitido inicialmente que a deslocação para o local de trabalho era opcional. Tal como a esmagadora maioria dos colegas, optou por garantir o trabalho em casa.

Governo de Macau de medidas excecionais

Esta semana voltou ao escritório para, na terça-feira, após o anúncio do Governo de Macau de medidas excecionais que praticamente paralisaram Macau, o empregador ter decidido enviar os advogados para casa. “Domingo vão informar-nos se a situação se mantém, se voltamos à normalidade ou, até, se passamos a trabalhar por turnos, para ficarem assegurados os serviços mínimos”, concluiu.

À semelhança de Filipe, ele com maior preocupação por causa dos quatro filhos, Zélia Almeida destacou a ‘nova’ vivência e “os hábitos ainda mais controlados” neste período. “Mais cuidado a lavar as mãos, (…) mudar de máscaras todos os dias (…) e essencialmente não sair de casa, porque são as diretrizes do Governo para não haver tanta circulação de pessoas e, neste caso, também da doença”, justificou.

Pouco mais de um ano depois de ter chegado a Macau para trabalhar, Zélia contava receber a visita do namorado por esta altura. O vírus chegou primeiro e o reencontro terá de ser adiado para uma outra oportunidade, quando Macau voltar a ser a cidade que Zélia se habituou a conhecer. “O meu namorado vinha agora de Portugal. Como é lógico queria apresentar-lhe Macau, os casinos, o coração da cidade, e infelizmente não sabemos como vai estar a parte das fronteiras, e vai-se tentar adiar a viagem”, explicou.

Diocese de Macau suspende missas e avança com transmissões online

Até 19 de fevereiro “todas as missas para o público agendadas são suspensas em todas as igrejas, comunidades e lares de idosos na diocese de Macau. Os fiéis são aconselhados a não sair, a não ser em caso de necessidade”, de acordo com um comunicado publicado no ‘site’ da instituição, que passa a fornecer um link no website. Já os serviços matrimoniais e funerários “podem ser celebrados mediante acordo entre os padres da paróquia, as partes envolvidas e suas famílias”, esclareceu na mesma nota.

Governo assegura que há alimentos em stock

Esta medida surge depois de o chefe do Governo de Macau ter determinada o fecho de cinemas, teatros, estabelecimentos de saunas e massagens, bares, discotecas e ginásios, entre outros espaços, para prevenir o risco de contágio do novo coronavírus.

Após o anúncio de medidas excecionais de combate ao coronavírus, o secretário para a Economia e Finanças, Lei Wai Nong, apelou à população  para não correr aos supermercados, assegurando alimentos suficientes em stock e centenas de toneladas de produtos já encomendadas. “Se o fizerem poderão contribuir para mais confusão no mercado”, frisou, referindo que “as pessoas não estão a ajudar à prevenção desta epidemia” porque estão em ajuntamentos e espaços fechados.

O presidente do Instituto para os Assuntos Municipais, José Tavares, na mesma conferência, disse que existem produtos alimentares congelados suficientes para mais 10 ou 15 dias. Vão ainda chegar a Macau, nos próximos dias, centenas de toneladas de frutas, peixe, porco ou vegetais. José Tavares assegurou, contudo, que ainda há bens suficientes nos supermercados.”Não precisam de entrar em pânico”, frisou.

Portugal sem máscaras

“Macau tem dinheiro”, mas tem sido difícil arranjar máscaras no mercado, disse o chefe do Governo, Ho Iat Seng, em conferência de imprensa, durante a qual anunciou todos os casinos do território vão fechar durante duas semanas. “Neste momento, Portugal já não tem mais máscaras”, afirmou o responsável do território.

LEIA MAIS
Meteorologia: Previsão do tempo para esta quinta-feira, 6 de fevereiro
Coronavírus: Asiáticos usam a boca para limpar patas de frango [vídeo]

Impala Instagram


RELACIONADOS