Cinema histórico angolano de Moçâmedes continua abandonado, mas reabilitação está para breve

O icónico Cine-Estúdio do Namibe, Angola, conhecido como “a nave espacial”, nunca chegou a estrear um filme e foi abandonado há quase meio século, um destino que o governo provincial quer mudar com a reabilitação deste património, recentemente classificado.

Cinema histórico angolano de Moçâmedes continua abandonado, mas reabilitação está para breve

Cinema histórico angolano de Moçâmedes continua abandonado, mas reabilitação está para breve

O icónico Cine-Estúdio do Namibe, Angola, conhecido como “a nave espacial”, nunca chegou a estrear um filme e foi abandonado há quase meio século, um destino que o governo provincial quer mudar com a reabilitação deste património, recentemente classificado.

A construção da obra do arquiteto Botelho Vasconcelos, do Atelier Boper, teve início em 1974, mas nunca chegou a ser terminada, ultrapassada pelas convulsões da história de Angola, que conquistou a independência em 1975 e se confrontou logo a seguir com uma longa guerra civil que durou três décadas.

O velho cinema assistiu às mudanças da cidade e do país, sobrevivendo à violência das armas, ao vandalismo e à negligência.

Moçâmedes contava já com dois cinemas — o Cineteatro Moçâmedes e o Cinema Impala — quando Gaspar Madeira e os seus sócios da firma Cine Moçâmedes decidiram convidar o arquiteto Botelho Vasconcelos para um novo e revolucionário projeto.

“Acharam que esta cidade merecia ter um ex-líbris numa zona nobre que era esta”, descreve o filho e herdeiro, Ildeberto Madeira, à agência Lusa, mostrando a larga avenida de Moçâmedes onde o edifício foi erguido, onde se localizam os principais edifícios da administração.

Inspirado na arquitetura modernista do brasileiro Óscar Niemeyer, Botelho Vasconcelos desenhou um edifício arrojado de linhas arredondadas, misto de cápsula espacial e cogumelo, preparado para receber 400 espetadores, cujo projeto incluía ainda restaurante e galeria comercial, mas ficou por concluir.

Parte do património desapareceu, entretanto, incluindo infraestruturas técnicas e portas de alumínio que já estavam colocadas, e Ildeberto Madeira teme pelo futuro do edifício, dizendo que tem havido “conversações” sem se chegar a nenhuma conclusão sobre “o que se vai fazer”.

Criticando as autoridades angolanas “que nunca se interessaram” pelo projeto, o sociólogo e historiador, profundo conhecedor da cidade onde nasceu e à qual regressou após se formar em Ciências Sociais em Bruxelas, recorda que o cinema atraía “multidões” e lamenta que o hábito se tenha perdido, com as salas transformadas em locais de culto.

Museu ou sala de exposições são algumas das ideias de que já ouviu falar, mas com as quais não concorda, defendendo que o edifício deve manter a utilização para o qual foi concebido, acolhendo o cinema e outros espetáculos.

Por enquanto, o Cine-Estúdio continua sem uso, apesar da sua classificação recente como património histórico-cultural ter contribuído para a salvaguarda do edifício, que deverá ser reabilitado em breve, como assumiu um responsável do Governo Provincial do Namibe.

Em declarações à Lusa, o assessor da vice-governadora para os Serviços Técnicos e Infraestruturas, Deonilde Pombal, garantiu que o edifício vai ser concluído e recuperado pelo consórcio Toyota Tsusho Corporation e TOA Corporation, que está a desenvolver o projeto de desenvolvimento integrado da Baía de Moçâmedes, no âmbito do seu programa de responsabilidade social.

O mega-projeto, no valor de 600 milhões de dólares (563,7 milhões de euros), vai mobilizar mil trabalhadores, e prevê a construção de um terminal mineraleiro e a ampliação do terminal de contentores do porto comercial, entre outras obras.

Deonilde Pombal garantiu que o edifício vai manter a estrutura original, tendo sido já enviadas ao empreiteiro todas as plantas, cortes e desenhos originais para se poder elaborar e aprovar o projeto e dar início à obra, por enquanto sem data para começar.

“Como o projeto da bacia tem a duração de três anos e já foi iniciado, temos a expetativa de que seja concluído neste período”, adiantou.

Para evitar mais danos no património, o governo provincial mandou limpar o local, que estava grafitado e “transformado num balneário”, e colocou uma equipa de segurança 24 horas/dia para controlar os acessos e manter o espaço limpo.

No decreto que classifica o Cine-Estúdio como património histórico-cultural nacional, datado de 02 de agosto, destaca-se o edifício como uma das mais representativas criações do “Modernismo Tropical”, existente em toda a Angola, permitindo compreender a evolução tipológica das salas de cinema, desde o seu surgimento, a partir dos anos 1930.

A classificação foi feita reconhecendo a necessidade de se promover o seu reconhecimento como um importante lugar de memória da cidade de Moçâmedes.

Quanto à futura utilização, Deonilde Pombal sublinhou que manterá as funções com que foi inicialmente concebido, podendo funcionar como cinema ou sala multiúsos.

Recentemente, o local recebeu uma exposição comemorativa do centenário de Agostinho Neto, primeiro Presidente angolano, no âmbito do Festival Nacional da Cultura.

 

 

RCR // VM

By Impala News / Lusa

Impala Instagram


RELACIONADOS