Cinema de Chema García Ibarra retira fantástico à ‘sci fi’ em Elche

O cineasta espanhol Chema García Ibarra tem dedicado os seus filmes à ficção científica a que “é extraído tudo o que há de fantástico”, trabalhando sem atores profissionais e sempre em Elche, explica em entrevista à agência Lusa.

Cinema de Chema García Ibarra retira fantástico à 'sci fi' em Elche

Cinema de Chema García Ibarra retira fantástico à ‘sci fi’ em Elche

O cineasta espanhol Chema García Ibarra tem dedicado os seus filmes à ficção científica a que “é extraído tudo o que há de fantástico”, trabalhando sem atores profissionais e sempre em Elche, explica em entrevista à agência Lusa.

Aos 42 anos, é um dos realizadores em foco no festival internacional Curtas Vila do Conde, que decorre até domingo naquela cidade do distrito do Porto, um ano depois de estrear a primeira longa metragem, “Espíritu Sagrado”.

Multipremiada em festivais por todo o mundo, incluindo em Locarno, onde se estreou, e Seattle, a obra acompanha uma associação de ‘aficionados’ de OVNI após a morte do presidente.

“Não sou muito versátil. Há uma espécie de evolução, mas em círculos. Em torno dos meus temas, que são os que me interessam. Interessa-me a ficção científica, interessa-me rodar na minha cidade, filmar com atores não profissionais, e fazer filmes de ficção científica fantástica a que lhes extraímos tudo o que há de fantástico”, explica à Lusa, em Vila do Conde.

O trabalho arrancou em 2008 com “El ataque de los robots de nebulosa-5”, e foi prosseguindo em ‘curtas’ como “Protopartículas”, “La Disco Resplandece” e “Uranes”, e, desde então, até à estreia em ‘longas’, “muita coisa melhorou, a linguagem cinematográfica, visual”, mas sempre com “uma evolução circular”.

Esta compressão entre o tempo de produção e o de apresentação, dado que aqui, na retrospetiva, traduz-se no facto de, “entre um filme e outro, passam 10 segundos, no que levou dois ou três anos” a filmar.

Se há “um humor muito concreto, por vezes muito negro, que é muito importante e permanece” ao cabo de mais de 10 anos, a cidade de Elche, em que rodou todos, “muda como qualquer outra”.

“Há um sítio na minha primeira ‘curta’ em que um rapaz se desloca, por achar que é o único sítio onde pode estar seguro. Esse lugar já não existe”, exemplifica.

Nessa cidade onde predomina a indústria do calçado, com cerca de 250 mil habitantes e na província de Alicante, acaba por “filmar coisas pelas quais o tempo também passa” e outros “sítios inamovíveis, que estão sempre iguais”.

“No filme ‘Espíritu Sagrado’, quisemos encontrar um lugar que ainda não tivesse sido tocado pelas mãos do Ikea. Convertem todos os lugares em coisas iguais. Parecem todos Airbnb, com mobiliário de aeroporto. Não queríamos isso, de forma nenhuma. Custou encontrar uma casa que fosse como as casas de Elche dos anos 1990, que as pessoas compravam, quando podiam, e mobilavam uma vez. Era também uma intenção de retratar isso”, conta.

Esse “tipo de autenticidade” que procura pode um dia “dar valor arqueológico” aos seus filmes, seja pelo tipo de casas seja por lugares como um bar presente no filme, “igual desde os anos 1970, que é muito provável que seja já completamente distinto nos próximos anos”.

Como “tudo está a ficar uniformizado”, também as pessoas da cidade, protagonistas desta ficção científica a que se chega depois de uma “atmosfera documental” ser atravessada, pelo espectador, vão mudando.

“Se há algo que nunca mudou na indústria do calçado em Elche é a crise. Há um momento, nos anos 1960, que esteve bem. Daí para a frente, sempre mal. Crises grandes ao longo das décadas, a deslocalização do trabalho para a China. Sempre mal. A classe operária sempre sofreu golpes. Faço estes filme com as pessoas que me rodeiam, porque vivo no mesmo bairro de sempre. Faço parte deste mundo e queria continuar a retratar estas pessoas”, afirma.

Procura “a tensão de duas formas muito distintas” de colocar alguém em cena, por um lado “a naturalidade total, da pessoa no ecrã a falar e a expressar-se como faria fora dele”, e, por outro, “a artificialidade total, quando a pessoa está nervosa, até a recitar as falas”.

“Eu gosto das duas coisas, mas o que mais gosto é quando se dão à vez. Aí, fico louco. Vejo nas duas coisas o humano. Quando não vejo humanidade, quando um ator trabalha criou pessoas, praticou um tique… O que eu quero é encontrar alguém que tenha um tique. Tudo isso me emociona, vejo um humano, que me está a ajudar a transmitir ideias de ficção”, descreve.

Como gosta de ficção científica “desde menino” – e cresceu com autores como Stanislaw Lem e Isaac Asimov -, ‘deu-lhe’ a vontade de que os seus filmes estivessem sempre com “tudo ligado a tudo”, uma obra que se torna um coro, e aplicou esse exercício ao operariado de que era vizinho.

“Eu gosto de a usar [ficção científica] como contraste com outras coisas. O que é que se passa se aqui, neste bairro de Elche, com pessoas normais, se eu filmar aqui uma ficção científica? Esse exercício gerou muitas das minhas ‘curtas’. Como seria se este operário do calçado protagonizasse um filme ‘sci-fi’?”.

 

SIF // MAG

By Impala News / Lusa

Impala Instagram


RELACIONADOS