Baleia Azul: Os alertas que os pais não devem ignorar

O jogo Baleia Azul, que leva jovens e crianças ao suicídio, apresenta diversos sinais que escapam aos pais mas que são uma arma a favor daqueles que aliciam os participantes.

Baleia Azul: Os alertas que os pais não devem ignorar

O jogo Baleia Azul, que leva jovens e crianças ao suicídio, apresenta diversos sinais que escapam aos pais mas que são uma arma a favor daqueles que aliciam os participantes.

Hoje ficou conhecido aquele que será o quarto caso de um jovem português internado devido ao jogo Baleia Azul. Estes são apenas os casos que têm vindo a público pois acredita-se que existem muitos mais. Para perceber melhor os motivos pelos quais existem crianças e jovens a querer fazer parte destes grupos secretos, bem como aquilo que escapa aos pais e outros detalhes deste jogo perverso, fomos falar com Teresa Paula Marques, psicóloga clínica e educacional e diretora clínica da Academia de Psicologia da Criança e da Família.

E qual será o motivo pelo qual existem jovens que se sentem tentados em participar no jogo Baleia Azul? “Não é qualquer tipo de jovem. São jovens à partida desajustados, com alguns desequilíbrios a nível da depressão, que já se auto-mutilaram previamente. Sentem-se atraídos por este tipo de desafio”, explica. “São contactados diretamente pois este jogo tem características diferentes de outros. São grupos secretos em que as pessoas são convidadas pelos curadores, as pessoas que estão por detrás desta manipulação dos jovens. E que manipulam jovens mais frágeis”, acrescenta a psicóloga.

Baleia azul “é um jogo sadomasoquista, em que o sádico é o curador e o masoquista o jogador”

Teresa Paula Marques avança ainda outras caraterísticas comuns aos jovens, que passam pela necessidade de aceitação. “São pessoas isoladas que ao sentirem-se convidadas, mesmo não conhecendo as pessoas de lado nenhum, preenchem a necessidade de sentir que pertencem a algo. Só que depois o jogo torna-se altamente perverso”, refere. A psicóloga traça ainda o perfil dos curadores. “São um grupo de pessoas também perturbadas porque é um jogo sadomasoquista, em que o sádico é o curador e o masoquista o jogador”, defende.

A diretora clínica explica ainda como é que tudo se processa. “As pessoas mais sádicas fazem rondas pelo Facebook onde os adolescentes não têm por hábito acionar grandes mecanismos de proteção. As páginas estão abertas e eles conseguem observar o tipo de comentários e o número de amigos. Até porque os jovens desajustados têm tendência a ter menos amigos. O desajuste que se verifica offline passa para o online. Analisam também as fotografias e tudo aquilo que remeta para uma situação mais depressiva e de auto-mutilação. Esta ronda é feita minuciosamente, selecionam determinados indivíduos e convidam-nos a participar. E o secretismo ainda os alicia mais. De uma maneira perversa, este desafio está bem construído”, refere.

“O curador dá a atenção que os pais não dão”

Todo este cenário coloca em causa o papel dos pais. Isto na medida em que os curadores aparentam estar mais atentos à realidade dos jovens do que os próprios pais. “Os curadores acabam por estar muito mais atentos aos jovens do que os próprios pais. Os curadores selecionam jovens com base em características que também se revelam diariamente. É óbvio que um jovem que se auto-mutila, sobretudo as meninas, esconde o que faz com a roupa. Até porque a auto-mutilação não pretende chamar a atenção de ninguém, é algo auto-dirigido para diminuir um sofrimento emocional. Neste sentido os pais podem não se aperceber no inverno.”

“Mas no verão estes jovens tendem a continuar a estar extremamente tapados e isso já poderá ser um indicador. Para além disso os sinais de depressão podem ser evidentes porque a pessoa não tem interesse para atividade nenhuma, habitualmente não sai de casa nem tem amigos”, defende. “Infelizmente, hoje em dia, muitos pais não estão atentos aos filhos, não os conhecem, no sentido em que não sabem os hábitos ou gostos dos filhos, nem sabem quem são os seus amigos. Enquanto que o curador está atento. De uma maneira perversa, mas está. E também aqui vem preencher esta necessidade de atenção que os jovens não têm em casa. O curador dá a atenção que os pais não dão”, diz.

É importante “estar numa rede social para monitorizar aquilo que o filho está lá a fazer”

Teresa Paula Marques deixa alguns conselhos para os pais de modo a evitar aquilo que se pode transformar numa tragédia. “Por muito que os pais não percebam o funcionamento de uma rede social, é quase obrigatório saber o mínimo de uma rede social. Estar presente numa rede social, nomeadamente no Facebook, para monitorizar aquilo que o filho está lá a fazer. As redes sociais são um espelho do offline”, argumenta. “O que posso dizer aos pais é que estejam mais atentos aos filhos. Dialoguem com os filhos. A adolescência é uma fase mais problemática e os pais têm um papel muito importante. A depressão, suicídio e auto-mutilação são muito caraterísticas da adolescência e já o eram antes da existência das redes sociais. Verifica-se é uma transposição de tudo isto para as redes sociais. As pessoas não dialogam, nem no sentido de entrar em conflito. E era melhor entrar em conflito do que existir este vazio. Acho que é um vazio”, diz.

“Os jovens gostam muito de imitar, sobretudo estas coisas ligadas ao suicídio”

A psicóloga aborda ainda os eventuais perigos da mediatização do jogo Baleia Azul. “Tem sempre um lado muito perverso que é o da imitação. Os jovens gostam muito de imitar, sobretudo estas coisas ligadas ao suicídio. Pode existir este efeito de mimetismo. Por outro lado, é possível que alerte mais os pais. Acredito que a maioria dos pais já tenha ouvido falar de tudo isto. Por outro lado, fiz uma pesquisa e encontrei em algumas páginas comentários de jovens a revelar o desejo de participar no jogo”, defende.

Teresa Paula Marques, psicóloga clínica e educacional e diretora clínica da Academia de Psicologia da Criança e da Família

O jogo Baleia Azul leva os participantes a percorrerem um conjunto de 50 etapas em que a última significa colocar um ponto final na própria vida. Muito se tem dito sobre o nome do jogo, mas para Teresa Paula Marques é mais uma prova da mente diabólica do seu criador. “O indivíduo que criou este jogo é russo e está preso há algum tempo. Tem 21 anos, é cabeleireiro de profissão e será doente bipolar. Na fase mais maníaca inventou este desafio bastante mórbido. É alguém com grande capacidade de manipulação e terá conhecimentos de psicologia porque o nome dado ao desafio não é por acaso. A baleia, em termos psicanalíticos, é um dos símbolos do inconsciente porque habita o fundo do mar e que ocasionalmente vem a cima. É o inconsciente que de vez em quando se torna consciente. E o azul é o símbolo, em termos de cor, da depressão”, conclui.

Texto: Bruno Seruca | WIN

Impala Instagram

Mais

RELACIONADOS