“Avenida Almirante Reis em 3 Andamentos” estreia-se hoje nos cinemas

No filme “Avenida Almirante Reis em 3 Andamentos”, que se estreia hoje, Renata Sancho revisita a história e as histórias de uma das mais emblemáticas artérias lisboetas, palco de grandes manifestações populares e zona de fixação de populações migrantes.

“Avenida Almirante Reis em 3 Andamentos” estreia-se hoje nos cinemas

No filme “Avenida Almirante Reis em 3 Andamentos”, que se estreia hoje, Renata Sancho revisita a história e as histórias de uma das mais emblemáticas artérias lisboetas, palco de grandes manifestações populares e zona de fixação de populações migrantes.

A ideia de fazer um filme dedicado à Avenida Almirante Reis surgiu em 2011/2012, quando Renata Sancho trabalhava em “Os Dias Contados”, filme sobre a livraria Sá da Costa, no Chiado, que coincidiu com a altura em que se mudou para a avenida onde tinha vivido “quando era miúda”.

“Uma das razões para fazer um filme é trabalhar sobre coisas que gostamos, neste caso é a Avenida Almirante Reis”, contou, em declarações à Lusa, acrescentando que, ao “assistir ao que está a acontecer em Lisboa”, achou que seria bom dedicar uma obra àquela artéria “pela história da avenida e pela localização, que corta Lisboa ao meio, e que cresceu com a cidade, a todos os níveis”.

A ideia inicial passava por criar um filme recorrendo “estritamente” a materiais de arquivo, mas “aqui começaram os problemas, dos bons e dos maus”.

“Fiz uma grande pesquisa de imagens fotográficas e em movimento e de depoimentos, procurei em vários lugares e a verdade é que fiquei bastante desapontada com o que encontrei, por várias razões”, partilhou.

O filme acabou por ser “uma grande aprendizagem”, ao deparar-se com “dificuldades inerentes ao próprio trabalho de pesquisa de arquivo”.

A Avenida Almirante Reis existe desde 1908 e “fazer a história da avenida só com imagens em movimento teria dificuldades só por si, porque, até aos anos 40, não havia imagens em movimento”.

Além disso, pelo “modo como a cidade cresceu” e o facto de o país ter vivido 48 anos em ditadura, as filmagens de arquivo que existem são da zona Norte da Avenida (Alameda Afonso Henriques e Areeiro). “Tinha uma parte sem imagens em movimento, com exceção da procissão de Nossa Senhora da Saúde”, contou.

A realizadora deparou-se também com várias imagens “em que falta som” e o material fotográfico que existe “é também ele determinado por ‘fait-divers'”.

“Havia uma expectativa sobre o arquivo que foi sendo sucessivamente diminuída. A certa altura decidi, em dezembro de 2016, começar a filmar a avenida. Para fazer as rimas que queria entre o presente e o passado”, explicou.

Entretanto, nas filmagens, que aconteceram até 2018, “muitas coisas, fruto da transformação da cidade, começaram a desaparecer”, acabando por levar a gentrificação para dentro do filme, “porque é inevitável”.

“A gentrificação está presente pela contraposição de umas imagens a outras, na montagem”, referiu, salientando que privilegiou “a ocupação republicana do início do século e os grandes comícios, de onde partiu também a ideia de fazer este filme”.

Renata Sancho destaca o facto de, ao longo da história, a Avenida Almirante Reis “ser ocupada por grandes manifestações populares, sejam os primeiros comícios republicanos ou depois a primeira grande manifestação do 1.º de Maio de 1974”.

Mas a realizadora fala também uma outra ‘ocupação’, “numa cidade cosmopolita num mundo global”, de uma avenida onde “desde os anos 1980/90 se fixaram as populações que são visitantes, os chineses, os africanos, os brasileiros, os ucranianos, e agora os nepaleses”.

“As pessoas que vêm de fora, tradicionalmente, sempre estiveram por aqui. E isto rima com uma coisa que é típica de Lisboa, cidade que foi construída por pessoas que não são de Lisboa”, referiu, recordando que, “nos anos 1940, 50, 60, quem construiu a cidade de Lisboa fixou-se” naquela zona onde ainda existem, ou existiram coletividades como a Casa de Gouveia, a Casa dos Amigos do Minho, a Casa do Sabugal ou a Casa de Castanheira de Pêra.

Renata Sancho lembra ainda a altura do pós-25 de Abril, que levou a fixarem-se naquela área da cidade “as pessoas que vieram das ex-colónias” e, “agora, com a gentrificação, os novos investidores”.

“Avenida Almirante Reis em 3 Andamentos” conta, em cerca de uma hora, a história de uma artéria “que é rica em muitas histórias do passado e do presente”.

O filme, que esteve na secção competitiva do festival DocLisboa, no ano passado, está em exibição a partir de hoje nos cinemas City: Alvalade, em Lisboa, Setúbal e Leiria.

JRS // MAG

By Impala News / Lusa

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