António Ferreira roda em Coimbra filme que aborda a “ilusão da meritocracia”

O realizador António Ferreira está a rodar em Coimbra, até dezembro, a sua próxima longa-metragem, “A Bela América”, um filme que, a partir de uma “história de amor improvável”, aborda a “ilusão da meritocracia” e as desigualdades sociais.

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António Ferreira roda em Coimbra filme que aborda a “ilusão da meritocracia”

O realizador António Ferreira está a rodar em Coimbra, até dezembro, a sua próxima longa-metragem, “A Bela América”, um filme que, a partir de uma “história de amor improvável”, aborda a “ilusão da meritocracia” e as desigualdades sociais.

Na encosta junto à Couraça dos Apóstolos, na Alta de Coimbra, ouvem-se gritos de manifestantes: “Fascistas!”, “As casas não são lucro!”.

Figurantes seguram cartazes, onde se lê “Basta de despejos” e “Os turistas não votam”, enquanto passa América, uma das personagens centrais do filme (interpretada por São José Correia), candidata a presidente e que tenta seguir indiferente aos gritos dos manifestantes, que abafam as palavras de ordem da máquina de campanha.

“O pessoal está com raiva”, nota o realizador António Ferreira a rever as imagens captadas. Mais tarde, terá dificuldade em calar os gritos entre apoiantes de América e manifestantes, já depois de dizer “Corta!”, como se o momento tivesse ganhado vida própria.

Para isso, talvez ajude o facto de o filme falar de assuntos atuais, como a gentrificação ou as desigualdades sociais, numa obra que apesar de ser toda ela filmada em Coimbra, passa-se numa qualquer cidade, por o tema ter um pendor universal, explicou à agência Lusa o realizador.

“A Bela América” é uma tragicomédia sobre Lucas, um cozinheiro de origem humilde despejado da sua casa, que se apaixona por América, uma estrela de televisão candidata a presidente, e a tenta conquistar através do seu talento culinário.

Na obra, há uma espécie de “história de amor improvável, como a ‘Bela e o Monstro'”, mas que tem como pano de fundo as desigualdades sociais e é sobre isso que António Ferreira quer falar.

“Fala-se tanto da meritocracia, de que somos responsáveis pelo nosso destino e culpamo-nos a nós próprios quando falhamos. Estamos num mundo altamente exigente e estamos entregues a nós próprios, a uma certa fatalidade”, contou.

O nome do filme é também uma referência à ideia do “sonho americano” e da ilusão de que se uma pessoa se esforçar consegue ter sucesso, frisou.

“Há duas personagens que se encontram e por muitas vezes que se encontrem nunca seguem o mesmo caminho. O António deu-me um exemplo prático: É como se houvesse um elevador e a classe menos favorecida está toda à parte e um apanha o elevador, mas é só um. A América apanhou esse elevador, através da televisão e procura agora utilizar isso para se catapultar para o poder real, que é o poder político”, disse à Lusa São José Correia.

O ator Estêvão Antunes, que interpreta Lucas, considera que a sua personagem é “bastante conformada com a vida”, que tenta dar o seu melhor – faz comidas para uma aplicação -, mas o trabalho não o satisfaz e não consegue sair de um contexto de pobreza.

“É um filme bastante atual. Fala das diferenças sociais, de dois lados que se cruzam e que talvez não se conseguem misturar. O filme trabalha essa tensão, mas também a possibilidade de zonas opostas se poderem relacionar”, aclarou.

Para a atriz Custódia Galego, que faz de mãe de Lucas, o filme aborda assuntos transversais “a todas as épocas”, como é o caso do direito a uma vida digna e a uma casa.

“Esta família vive num barracão sem condições e tenta voltar atrás, porque têm os seus direitos e querem reivindicar um espaço para viver”, referiu.

O filme é um projeto antigo de António Ferreira, que escreveu o argumento a meias com César Silva (com quem também escreveu “Esquece Tudo o que te Disse”, a primeira longa do realizador, de 2002).

Era para ter sido rodado logo a seguir a “Esquece Tudo o que te Disse”, mas a falta de financiamento foi adiando o projeto, até que foi possível assegurar apoio do programa ibero-americano Ibermedia (o filme é um coprodução com o Brasil) e avançar com a rodagem da longa quase 20 anos depois de ter sido escrita.

“Tenho um grande carinho por ele. Já está muito mudado, até porque a história não tinha manifestações, não falava de gentrificação nem de aplicações tipo Uber e o projeto foi evoluindo, foi-se adaptando aos tempos”, contou.

Para “A Bela América”, a equipa não contou com apoio à produção por parte do Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA), cujas candidaturas foram “sucessivamente recusadas”, mesmo depois de ter assegurado a ajuda do Ibermedia.

“Andámos três anos em concursos e decidimos não esperar mais”, salientou, referindo que o único apoio do ICA é o “automático” dos resultados do filme “Pedro e Inês”, lançado em 2018.

O filme deverá estrear depois do verão de 2022, disse.

JGA // SSS

By Impala News / Lusa

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