Afetados pela barragem em Ribeira de Pena ficam nas suas casas até serem obrigados a sair

Parte dos habitantes de Ribeira de Pena afetados pela construção da barragem do Alto Tâmega continuam nas suas casas e garantem manter-se até serem obrigados a sair.

Afetados pela barragem em Ribeira de Pena ficam nas suas casas até serem obrigados a sair

Afetados pela barragem em Ribeira de Pena ficam nas suas casas até serem obrigados a sair

Parte dos habitantes de Ribeira de Pena afetados pela construção da barragem do Alto Tâmega continuam nas suas casas e garantem manter-se até serem obrigados a sair.

Ribeira de Pena, Vila Real, 06 nov 2019 (Lusa) — Parte dos habitantes de Ribeira de Pena afetados pela construção da barragem do Alto Tâmega continuam nas suas casas apesar do final do prazo para deixarem a habitação e garantem manter-se até serem obrigados a sair.

“Disseram-nos que tínhamos de sair até dia 04 de novembro, mas agora pelos vistos vamos poder passar na nossa casa o Natal e a passagem de ano”, adiantou hoje à Lusa Maria da Glória Gonçalves, uma das moradoras de Ribeira de Baixo, no concelho de Ribeira de Pena, que terão de deixar a sua habitação devido à construção da barragem do Alto Tâmega.

A empresa responsável pelo projeto que integra o Sistema Eletroprodutor do Tâmega (SET), a Iberdrola, preparou na localidade do distrito de Vila Real contentores para servirem de habitação provisória às famílias, mas estes ainda não estão a ser utilizados.

Segundo dados da autarquia de Ribeira de Pena, dos 49 casos de famílias que terão de ser realojadas no concelho, seis encontram-se resolvidos, 19 estão em tribunal e 24 em negociação.

Para Glória Gonçalves, que vive em Ribeira de Baixo com o seu marido há 40 anos, o valor da indemnização atribuído é insuficiente para construir uma nova casa.

“Nunca emigramos e com o dinheiro que ganhamos na lavoura criamos quatro filhos e construímos esta casa, com muito sacrifício”, conta.

Sem esconder a emoção com o aproximar da data para libertar a casa, Glória Gonçalves, de 69 anos, garante que apenas sairá quando for necessário, mas que não tem alternativa no momento.

“Com o dinheiro que nos deram não podemos construir uma nova casa como esta, com quatro quartos”, refere.

A assinalar 53 anos de casada com Eurico Fernandes, Glória Gonçalves lamenta ter de abandonar a localidade onde sempre viveu, depois de ter já visto vários vizinhos deixarem a terra depois de terem assinado os acordos.

Numa das casas já desocupada ficou mesmo escrita uma frase de despedida na parede: “adeus Ribeira de Baixo, ficará sempre no meu coração”.

Não muito distante e também em Ribeira de Baixo, Ana Maria Gonçalves continua a viver na sua casa de uma vida apesar da carta recebida para deixar a sua habitação.

“Não me deram dinheiro praticamente nenhum e por isso não saio daqui, pois não pagaram o suficiente para poder fazer outra”, atirou.

Com 83 anos, e a viver com o marido há 53 anos naquela casa, confessa sentir-se “muito triste” perante a necessidade de deixar a sua localidade.

“Trabalhamos muito para a ter, compramos o terreno e fizemos a casa com seis quartos, pois tivemos seis filhos”, explica.

Com os filhos emigrados em França, Ana Maria Gonçalves recusa-se mudar para os contentores provisórios por estes não terem “dignidade para lá viver”.

Para o presidente da Câmara de Ribeira de Pena, João Noronha, a maior preocupação é com o “realojamento das pessoas que vão ficar sem a sua habitação”, acusando a Iberdrola de demora na resolução do processo.

“Todas estas casas foram feitas pelas pessoas, com as suas poupanças, quer após trabalharem em Portugal, quer emigrados. Agora vêm-se confrontados com a necessidade de sair de casa e sem alternativa”, vincou.

Segundo o autarca, nada foi feito para que as pessoas pudessem sair das suas casas e irem para outra pronta a substituir, o que levou a população a pedir ajuda ao município.

“A Iberdrola há nove ou 10 anos que sabia que a determinada altura as pessoas tinham de sair de casa e nada foi feito. A câmara vê-se obrigada a tomar isso a peito, porque as pessoas já têm alguma idade e não têm forças para começar a construir uma casa”, lembrou.

João Noronha acrescentou ainda que os 70 ou 80 mil euros que a maioria das pessoas estão a receber pelas suas casas não são suficientes para fazer uma nova com as mesmas condições no concelho.

Em comunicado enviado à Lusa, a Iberdrola salientou que tem procurado estabelecer sempre “um acordo amigável com os proprietários”.

“Os acordos amigáveis representam mais de 75% do total. Do restante, apenas 1,5% corresponde a casos de não aceitação da indemnização proposta e os demais estão relacionados com problemas de registo predial e de titularidade de heranças indivisas”, explicou.

Sobre as habitações temporárias, a empresa espanhola manifestou-se “solidária com o desconforto que esta mudança de lar possa causar” e lembrou que realizou um estudo detalhado, caso a caso, desde o segundo semestre de 2017″.

“O objetivo primordial deste estudo foi dispor de todas as informações importantes para a agilização de um processo de realojamento adequado e justo para todos os casos. Uma vez compilada toda a informação, a Iberdrola está a articular, com as autoridades competentes, medidas de compensação adicionais ao processo de expropriação, que favoreçam o realojamento das famílias, com base na medida 29 do Plano de Ação Socioeconómico da Declaração de Impacte Ambiental (DIA). Entre outras ações, e para aquele número reduzido de casos nos quais essas medidas foram necessárias, a Iberdrola disponibilizou alternativas temporárias de habitação”, vincou.

DYMC // LIL/ROC

By Impala News / Lusa

Impala Instagram


RELACIONADOS