Pesadelos são indicadores de futuros problemas de demência

Os pesadelos são indicadores de futuros problemas de demência, indica um novo estudo desenvolvido pelo investigador Abidemi Otaiku, professor da Academia Clínica Neurológica da Universidade de Birmingham.

Pesadelos são indicadores de futuros problemas de demência

Pesadelos são indicadores de futuros problemas de demência

Os pesadelos são indicadores de futuros problemas de demência, indica um novo estudo desenvolvido pelo investigador Abidemi Otaiku, professor da Academia Clínica Neurológica da Universidade de Birmingham.

“Passamos um terço de nossas vidas a dormir e um quarto do nosso tempo a dormir é passado a sonhar. Portanto, em média, cada pessoa com a atual expectativa de vida de cerca de 73 anos passará mais de seis anos a sonhar” – e alguns destes sonhos são pesadelos – situa-nos Abidemi Otaiku, professor da Academia Clínica Neurológica da Universidade de Birmingham.

Ainda que o sonho represente “um papel central nas nossas vidas”, sabemos “muito pouco sobre por que sonhamos, como o cérebro cria os sonhos e”, mais importante, “qual o significado dos nossos sonhos para nossa saúde – especialmente a saúde dos nossos cérebros”. “O meu último estudo, publicado na revista eClinicalMedicine do The Lancet, mostra que os nossos sonhos podem revelar uma quantidade surpreendente de informações sobre a nossa saúde cerebral”. Mais especificamente, o estudo “mostra que ter pesadelos e pesadelos frequentes (sonhos maus que nos levam mesmo a acordar) durante a idade adulta e a velhice pode estar associado a um risco superior de desenvolvermos demência“, diz Otaiku.

No estudo, foram analisados dados de três grandes estudos norte-americanos sobre saúde e envelhecimento, que incluíram mais de 600 pessoas com idades entre os 35 e os 64 anos e 2.600 pessoas com 79 anos ou mais. Todos os participantes estavam livres de demência no início do estudo e foram acompanhados em média durante nove anos (adultos de meia-idade) ou cinco anos (participantes mais velhos).

No início do estudo (2002-12), os participantes preencheram uma série de questionários, incluindo um em que se questionava em pormenor com que frequência tinham pesadelos. Abidemi Otaiku analisou os dados “para descobrir se os participantes com maior frequência de pesadelos no início do estudo tinham maior probabilidade de sofrer declínio cognitivo [um declínio rápido na memória e nas habilidades de pensamento ao longo do tempo] e serem diagnosticados com demência”.

Pesadelos semanais

O neurocientista descobriu que “os participantes de meia-idade que experimentavam pesadelos todas as semanas tinham quatro vezes mais probabilidades de vir sofrer declínio cognitivo (um precursor da demência) na década seguinte”. Os participantes mais velhos tinham “duas vezes mais” risco de serem diagnosticados com demência.

“Curiosamente, a ligação entre pesadelos e demência futura era muito mais forte para os homens do que para as mulheres. Por exemplo, homens mais velhos que tinham pesadelos todas as semanas eram cinco vezes mais propensos a desenvolver demência em comparação com homens mais velhos que não relataram pesadelos. Nas mulheres, no entanto, o aumento do risco foi de apenas 41%”, nota. “Encontrei um padrão muito semelhante no grupo da meia-idade.”

No geral, estes resultados “sugerem que pesadelos frequentes podem ser um dos primeiros sinais de demência”, que “podem preceder o desenvolvimento de problemas de memória e pensamento em vários anos ou até décadas” – “especialmente em homens”. É igualmente “possível que ter pesadelos e pesadelos regulares possa ser uma causa de demência”, conclui o professor da Universidade de Birmingham.

Dada a natureza deste estudo, “não é possível ter a certeza de qual destas teorias está correta”, embora Otaiku suspeite de que “seja a primeira” – a de que pesadelos indicam futura demência. Independentemente de qual das teorias prevaleça, “a principal implicação do estudo permanece a mesma”, ou seja, “ter pesadelos e pesadelos regulares durante a meia-idade e a velhice pode estar associado a um risco acrescido de desenvolver demência mais tarde”.

“A boa notícia é que pesadelos recorrentes são tratáveis.” E o tratamento médico de primeira linha para pesadelos “já demonstrou diminuir a acumulação de proteínas anormais ligadas à doença de Alzheimer“. “Também há relatos de casos que demonstram melhorias nas habilidades de memória e pensamento após o tratamento de pesadelos.”

Estas descobertas sugerem que o tratamento de pesadelos pode ajudar “a retardar o declínio cognitivo” e a “prevenir o desenvolvimento de demência em algumas pessoas”, um importante caminho a ser explorado em pesquisas futuras”.

Os próximos passos da minha investigação de Abidemi Otaiku passarão por “investigar se os pesadelos em jovens também podem estar ligados ao aumento do risco de demência”. “Isto pode ajudar a determinar se os pesadelos causam demência ou se são simplesmente um sinal precoce em algumas pessoas. Também pretendo investigar se outras características dos sonhos, como a frequência com que nos lembramos dos nossos sonhos e quão vívidos eles são, também podem ajudar a determinar a probabilidade de as pessoas desenvolverem demência no futuro”, diz.

Esta investigação “pode não apenas ajudar a esclarecer a relação entre demência e sonhos, e fornecer novas oportunidades para diagnósticos precoces – e possivelmente intervenções precoces –, mas também pode lançar uma nova luz sobre a natureza e a função do fenómeno misterioso a que chamamos de sonhar“, conclui.

Texto: Luís Martins;
Foto: Jr Korpa

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