O que a Bíblia diz realmente sobre o aborto pode surpreendê-lo

Opositores e apoiantes católicos do aborto socorrem-se ambos da Bíblia para os seus argumentos contra e a favor da interrupção voluntária da gravidez. Mas o que dizem realmente as escrituras sobre o assunto?

O que a Bíblia diz realmente sobre o aborto pode surpreendê-lo

O que a Bíblia diz realmente sobre o aborto pode surpreendê-lo

Opositores e apoiantes católicos do aborto socorrem-se ambos da Bíblia para os seus argumentos contra e a favor da interrupção voluntária da gravidez. Mas o que dizem realmente as escrituras sobre o assunto?

Desde que o Supremo Tribunal norte-americano voltou a proibir o direito constitucional ao aborto, membros da comunidade cristã citam a Bíblia para argumentar a favor da celebração da medida. O problema, no entanto, reside no facto de que o texto, com mais de 2 mil anos, nada dizer sobre a interrupção voluntária da gravidez.

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Como professora universitária especializada em estudos teológicos e bíblicos, Melanie A. Howard, da Universidade Fresno Pacific, está “familiarizada com os argumentos baseados na Fé que os cristãos usam para apoiar as visões sobre o aborto, sejam a favor ou contra”. Muitas pessoas supõem que a Bíblia discute o assunto diretamente, mas “não é o caso”, diz a investigadora.

Contexto histórico do aborto

Os abortos “eram conhecidos e praticados nos tempos bíblicos”, embora os métodos “diferissem significativamente dos atuais”. O médico grego do século II Soranus, por exemplo, “recomendava jejum, sangria, saltos vigorosos e carregar cargas pesadas como formas de interromper uma gravidez”. O tratado de Soranus sobre ginecologia reconheceu diferentes escolas de pensamento sobre o assunto. Alguns médicos proibiram o uso de quaisquer métodos abortivos. Outros permitiam-nos, mas não nos casos em que se pretendia encobrir uma relação adúltera ou apenas com a intenção de preservar a boa aparência da mãe.

Por outras outras palavras, “a Bíblia foi escrita num mundo em que o aborto era praticado e visto com nuances”. Todavia, os equivalentes hebraico e grego da palavra “aborto” não aparecem nem no Antigo nem no Novo Testamento da Bíblia. Ou seja, o assunto “simplesmente nunca é mencionado diretamente”.

O que diz realmente a Bíblia

A ausência de uma referência explícita ao aborto não impediu, porém, os opositores ou apoiantes socorrerem-se da Bíblia para as suas posições. Os opositores recorrem a vários textos bíblicos que, em conjunto, parecem sugerir que a vida humana tem valor antes do nascimento. Por exemplo, a Bíblia começa a descrever a criação de humanos “à imagem de Deus“: “uma forma de explicar o valor da vida humana, presumivelmente antes mesmo de as pessoas nascerem”. Da mesma forma, a Bíblia descreve várias figuras importantes, incluindo os profetas Jeremias e Isaías e o apóstolo cristão Paulo, como tendo sido chamados para tarefas sagradas desde o tempo do útero. O Salmo 139 afirma que Deus “teceu-me no ventre da minha mãe“.

Os opositores do aborto, contudo, não são os únicos que podem apelar para a Bíblia em busca de apoio. Os defensores podem apontar a outros textos bíblicos que parecem contar como evidência a seu favor. “O Êxodo 21, por exemplo, sugere que a vida de uma mulher grávida era mais valiosa do que a do feto. O texto descreve um cenário em que homens que agrediam uma mulher grávida para lhe provocarem o aborto. Uma multa monetária era imposta se a mulher sofresse outros danos além do aborto espontâneo. Havendo danos adicionais, a punição para o agressor era sofrer danos recíprocos, até ao fim da vida”, explicita Melanie A. Howard.

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Existem outros textos bíblicos que parecem celebrar as escolhas que as mulheres fazem com os próprios corpos, “mesmo em contextos em que tais escolhas sejam socialmente evitadas”. O quinto capítulo do Evangelho de Marcos, por exemplo, descreve uma mulher com uma doença ginecológica que a fez sangrar continuamente correndo um grande risco – “Ela estende a mão para tocar o manto de Jesus na esperança de que ele a cure, mesmo acreditando-se que o toque de uma mulher menstruada pudesse causar contaminação ritual”. Jesus, porém, “elogia a escolha e elogia a Fé” da mulher.

Da mesma forma, no Evangelho de João, a seguidora de Jesus “Maria Madalena desperdiça recursos ao derramar um recipiente de uma valiosa nos pés de Cristo e ao usar o próprio cabelo para limpá-los – defendendo a decisão de quebrar o tabu social sobre tocar num homem não familiar de forma tão íntima”.

Aborto para lá da Bíblia

Em resposta à decisão do Supremo Tribunal dos Estados Unidos da América, os cristãos de ambos os lados da contenda partidária apelaram a vários textos para afirmar que a sua política é apoiada biblicamente. No entanto, “se eles afirmam que a Bíblia condena ou aprova especificamente o aborto, estão a distorcer a evidência textual, adequando-a à sua posição”.

Naturalmente, os cristãos podem desenvolver os próprios argumentos baseados na Fé sobre questões políticas modernas, quer a Bíblia fale diretamente sobre eles ou não. Mas “é importante reconhecer que, mesmo tendo a Bíblia sido escrita numa época em que o aborto era praticado, as escrituras sagradas “nunca abordam diretamente o assunto”, conclui a teóloga bíblica Melanie A. Howard, da Universidade Fresno Pacific.

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