O tempo não cura tudo | Crónica de Eunice Gaspar [jornalista]

«O tempo não cura tudo» | Crónica de Eunice Gaspar [jornalista Nova Gente]

Era muito simpático que assim fosse, mas na realidade o tempo não cura nada. Pode diluir, pode retirar peso, pode até fazer desvanecer uma dor que no presente se afirme à força intransponível. Mas não, o tempo não cura.

Crescemos a ser educados sob premissas que, mais tarde, nas horas de nos valermos delas, se revelam apenas ideias bonitas. Eventualmente inventadas por quem teve poucos ou nenhuns apertos na vida. Esta de que o tempo tudo cura é uma delas.

«O tempo não cura tudo. Aliás, o tempo não cura nada, o tempo apenas tira o incurável do centro das atenções» – Martha Medeiros

Era muito simpático que assim fosse, mas na realidade o tempo não cura. Pode diluir, pode retirar peso, pode até fazer desvanecer uma dor que no presente se afirme à força intransponível. Mas não, o tempo não cura. Transforma-nos, no máximo. Abana-nos nos nossos alicerces. O tempo só nos obriga a arranjar uma forma de sobrevivência, se quisermos ser optimistas.

«O tempo não salva, não resgata, não muda nada do que aconteceu» – Eunice Gaspar, jornalista

O tempo não salva, não resgata, não muda nada do que aconteceu. As coisas acontecem e no tempo que se segue tentamos de todas as maneiras arranjar ferramentas para nos aguentarmos, para sobrevivermos. Essas ferramentas e formas de viver acima das nossas tragédias, do que nos aconteceu ou nos fizeram, são nossas. Ninguém julgue que tem o direito de escolher os ‘remédios’, ou ‘remendos’, que usamos nessas alturas. Ninguém tem o direito a apontar o dedo a ninguém. A ferida é nossa, a cura escolhemos nós.

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Se ao resto do mundo parecer uma afronta, uma infantilidade, um andar a brincar junto ao precipício… deixem-nos. Ninguém nesta vida salva ninguém. Temos de ser nós a salvar-nos do que nos fizeram ou a salvar-nos que nós mesmos fizemos. A dor de cada um é das coisas mais íntimas que existem. Que se lixem os clichés. «O que não te mata torna-te mais forte», dizem. Tenho cá para mim que o que não nos mata lixa-nos durante muito tempo. O que não nos mata marca-nos. O que não nos mata arrasta-nos por sítios muito feios.

Eunice Gaspar é jornalista da Nova Gente
Eunice Gaspar é jornalista da Nova Gente

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