Exclusivo: Os segredos do sucesso estrondoso de Inês Henriques

Inês Henriques conquistou o primeiro título europeu de sempre nos 50 quilómetros marcha. Juntou isso a um título mundial. Como se atinge este ritmo? A atleta diz que é simples.

A primeira campeã do mundo e europeia de 50 quilómetros marcha é portuguesa. Chama-se Inês Henriques, é formada em enfermagem, mas a paixão pelo atletismo falou sempre muito mais alto.

A atleta de 38 anos conquistou o título continental na passada terça-feira, no Campeonato da Europa, a acontecer em Berlim, na Alemanha. Foi a primeira mulher a cortar a meta, após marchar 4 horas, 4 minutos e 36 segundos. Foi este o tempo que fez soar mais uma ‘A Portuguesa’ nos grandes palcos do desporto internacional, depois de ser cumprida «a prova mais dura do atletismo mundial».

RECORDE: Portugal tem uma campeã da Europa de 50km marcha

À procura de sabermos da fibra com que se fazem os nossos campeões em qualquer modalidade, Inês Henriques não esconde truques. Em declarações exclusivas ao Portal de Notícias, a atleta diz que a sua alimentação sempre foi «muito equilibrada» e deve isso à família, que a ensinou, desde pequena, «a comer saudável».

Os truques da alimentação de Inês Henriques

«Muita proteína, hidratos e vegetais.» «Uma alimentação normal» é aquilo em que a sua equipa se centra para o «abastecimento» que tanto Inês Henriques nos menciona em entrevista.

No entanto, sendo uma corredora de alta competição em longa duração (recorde-se: são 50 quilómetros a marchar!), explica que não tem, nem necessita, de ter cuidado a nível de peso. «Se tiver um quilo a mais, com os quilómetros todos e treino que faço, perco esse quilo facilmente. Não sou obcecada por esse aspecto», revela. «Se tiver de comer um doce, como o doce, porque aquilo faz-me bem a outras coisas», conta-nos entre risos.

Nos preparativos da prova que acabou gloriosa para a atleta portuguesa há um exemplo ilustrativo. «Treinei menos, mas ingeri mais hidratos, para ter mais reservas. Aí senti que aumentei algum peso, mas mais vale ter mais reservas do que elas me faltarem e, na realidade, rendeu», conta.

«Tenho 38 anos. Uns problemazitos vão surgindo, mas quero continuar aqui alguns anos. Acredito que ainda consigo fazer coisas mais bonitas»

Os nutricionistas do Comité Olímpico Nacional ajudaram a equipa de atletas em Berlim. Inês diz que «o abastecimento tem de ser «o mais correto» e, assim, não fica «tão preocupada com isso». «Sem dúvida nenhuma que isto foi o sucesso de uma equipa e queremos continuar. Acredito que ainda consigo fazer coisas mais bonitas.

O treinador Jorge Miguel, que também falou connosco, afirma que, em todos os casos, a actividade física é sempre «benéfica». No entanto, realça a noção que cada pessoa deve ter com o seu corpo. «Eu, por exemplo, estou a aproximar-me dos 70 anos. Portanto, faço as minhas caminhadas porque entendo que já não estou na idade para correr», explica.

«Consegui demonstrar ao mundo que as mulheres conseguem fazer 50 quilómetros com qualidade»

Recorde-se, novamente, que esta foi a primeira prova europeia de sempre onde as mulheres competiram na disciplina de 50km em marcha. Há dois anos, esta competição foi também uma estreia em mundiais de atletismo. Inês Henriques e Jorge Miguel, em conjunto com várias personalidades do desporto pelo mundo, «entenderam que o tratamento [entre homens e mulheres] tinha de ser igual».

Um dos advogados que apoiava a causa, sediado nos Estados Unidos, chegou a instaurar «um processo na associação europeia para a igualdade de género« «O que estavam a estabelecer não era correto», conta Inês Henriques. As mulheres «têm o pleno direito de ter as mesmas oportunidades que os homens», exclama. «O Comité Olímpico e a Federação Internacional devem reunir e decidir que se realize também uma prova feminina. Se é em conjunto porque só podem fazer três provas, façam em conjunto. Qual é o problema?»

A diferença entre homens e mulheres nem se notou durante esta prova em Berlim, porque Inês Henriques «exagerou no arranque», admite o treinador. Inês aceita. «Meti-me com os homens! De alguma forma, eles ficam incomodados. Houve uma altura que ia no meio de dois, do tipo ‘olá, estou aqui’. Eles iam olhando de lado, mas disseram ‘tem calma’. Devia ter sido mais cautelosa.

«Pouco depois dos 35km, percebi que estava em défice e tentei ser o mais inteligente possível. Tentar arranjar um ritmo que me fosse mais confortável até ao final da prova e ser campeã, que era o objetivo principal. A distância às adversárias já era grande. Mas já estava num estado ‘aguenta não chora!. A parte final foi dura, faltavam seis voltas que são 12km, ‘tens de aguentar’. Agarrava sempre duas garrafas de água, metia uma dentro do top e não parava. Era preciso sempre abastecimento. Na última hora, estava muito calor e podia ter acabado mal. Abrandei um pouco, mas consegui manter o ritmo.»

Inês Henriques tomou dois analgésicos na prova (um antes e outro durante) e alcançou o feito com uma «dor suportável»

Na segunda parte da prova, a perna esquerda da atleta «cedeu», ficando o tendão tibial «muito débil». Aplicados os devidos cuidados médicos, a atleta irá «preparar a próxima época desportiva», mas agora vai «descansar um mês».  Desfrutar também será o verbo a não esquecer neste momento. «Os nomes Inês Henriques, Jorge Miguel e da equipa de Rio Maior vão ficar na história da marcha mundial dos 50km», considera Inês.

Entretanto, o foco continuará a ser em permitir que as mulheres realizem a prova de 50km marcha nos próximos Jogos Olímpicos, em 2020, em Tóquio. «Nós, mulheres, temos oportunidade de também estar lá e quero estar lá para ser campeã olímpica. Posso não ser, mas a oportunidade é fantástica», diz.

«Amo verdadeiramente o que faço e, para além disso, abdiquei de algumas coisas, como estar com os amigos e a família. O Jorge Miguel já viu isso. Ele só me diz ‘vai-te divertir’ e as coisas acontecem», conta a nossa campeã. O treinador fica-se pelo factor psicológico que desempenhou ao lado da atleta. «O ‘vai diverte-te’ é uma expressão que procura apenas que o atleta se sinta confiante, calmo, sereno e não vá demasiado preocupado com o dever ou a obrigação. Qualquer palavra que possa desanuviar nesse momento é bem vinda. ‘Confio em ti, sabes do que és capaz’ é aquilo que se quer transmitir», revela.

Fotos: Redes sociais de Inês Henriques / Comité Olímpico de Portugal / Federação Portuguesa de Atletismo
Texto: Francisco Correia


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