Impala

A guerra acabou em Angola mas as minas ainda destroem vidas

Como outros angolanos, Jeremias Augusto, de 14 anos, sonha ser professor, mas o de continuar a jogar à bola ficou para trás, após ter sido atingido pela explosão de uma mina que, juntamente com os amigos, encontrou no campo.

*** Serviço vídeo disponível em www.lusa.pt ***



Huambo, Angola, 14 jan (Lusa) – Como outros angolanos, Jeremias Augusto, de 14 anos, sonha ser professor, mas o de continuar a jogar à bola ficou para trás, após ter sido atingido pela explosão de uma mina que, juntamente com os amigos, encontrou no campo.


“Eu e outro ficamos amputados [uma das pernas], um morreu e dois ficaram feridos”, começou por contar à Lusa Jeremias Augusto, recordando o acidente que viveu a 28 de outubro de 2016, juntamente com os amigos.


Tudo aconteceu na lavra, para onde ia com o avô para trabalhar. Aconteceu a 28 de outubro de 2016, a quatro quilómetros do chamado campo de Santo António, uma área do Huambo que antes era minada e que há precisamente 20 anos (15 janeiro 1997) foi visitada por Diana de Gales, que então colocou a necessidade de apoio à desminagem em Angola na agenda internacional.


“O mais novo encontrou e foi passando. Eu botei [atirou ao chão] e não sabia se aquilo ia explodir. A perna foi”, conta. Agora aguarda pelo final de abril para se cumprirem os seis meses de curativos necessários após a amputação da perna e assim, finalmente, colocar a prótese.


Entretanto, volta à escola em fevereiro, para repetir o sétimo ano, que não chegou a acabar devido ao acidente, e continuar o sonho de vir a ser professor. Com a prótese espera ainda voltar a fazer os trabalhos de serragem e soldadura que já realizava, para ajudar a mãe no sustento da casa e dos sete irmãos.


“Posso continuar o trabalho de serrar e soldar, mas jogar à bola não”, desabafa.


Quando a mina explodiu, Manuel, de sete anos, foi outra das vítimas. Também ficou sem uma perna, para desespero do pai, o primeiro-sargento do exército Luís Rodrigues, que ainda não se conforma com o que aconteceu.


Esteve na guerra e continua no Exército angolano depois do fim do conflito, em 2002: “No tempo que eu fiquei na tropa não cheguei a este ponto, mas o filho recém-nascido ficou amputado. Só para ir urinar tenho de pegar nele na cama e leva-lo para a casa de banho. A guerra acabou a caminho de 16 anos e estas coisas ainda acontecem”, conta o militar, revoltado.


Para já pede apoio para os tratamentos, já que outro dos cinco filhos ficou também ferido no mesmo acidente.


“Ou pago a casa, ou pago a escola ou pago os tratamentos. Não sei o que fazer, só peço ajuda”, atira o militar, desolado.


Os dois filhos do primeiro-sargento Luís Rodrigues e Jeremias Augusto recebem apoio do Centro de Medicina e Reabilitação Física Dr. Agostinho Neto, na cidade do Huambo, mas a unidade debate-se com a falta de recursos e apoio internacional, contando apenas com as “magras” verbas do Orçamento Geral do Estado angolano.


Até 2010 colocava entre 10 a 15 próteses por mês, mas depois de perder o apoio da Cruz Vermelha internacional, limita-se, a “três ou quatro”, como contou o diretor técnico do centro, que assegura parte da produção, montagem e colocação.


“Tendo em conta a procura isso é praticamente uma gota no oceano. A procura é tanta que nós não temos capacidade de resposta”, afirma Secretário Catita Daniel, recordando que mesmo depois do fim da guerra “continuam a aparecer amputados vítimas de minas”, sobretudo crianças.


A estrutura, diz, está “obsoleta”, ainda do tempo colonial, enfrentando ainda a falta de técnicos. Funciona com apenas 18 pessoas, para necessidades estimadas em 40 profissionais, face às “centenas de pessoas” que recorrem ao centro, que além da montagem e colocação de próteses e órteses faz ainda a reabilitação física.


“Estamos em ‘stock’ zero”, confessa o diretor do centro, Daniel Tove, referindo-se às “imensas solicitações” de mutilados, não só do Huambo como de outras províncias vizinhas, para colocação de próteses e cujos componentes têm de ser importados.


De acordo com o responsável, só para retomar a resposta que era dada antes do corte do apoio internacional, seria necessário mais de um milhão de dólares para os próximos anos.


“A guerra acabou, mas as minas ficaram”, desabafou.


Só em setembro de 2016, oito pessoas da mesma família foram mortas nos arredores do Cuíto, na província vizinha do Bié, depois da detonação de uma mina antitanque, ainda do período da guerra civil e que foi transportada para casa por uma criança, segundo a organização não-governamental britânica Halo Trust.


Estas organizações que operam em Angola admitem que face ao corte no financiamento internacional, o objetivo de desminar todo o país até 2025 pode estar comprometido.



PVJ // EL


Lusa/Fim


RELACIONADOS

A guerra acabou em Angola mas as minas ainda destroem vidas

Como outros angolanos, Jeremias Augusto, de 14 anos, sonha ser professor, mas o de continuar a jogar à bola ficou para trás, após ter sido atingido pela explosão de uma mina que, juntamente com os amigos, encontrou no campo.