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Angolanos juntam-se para fazer ‘sócia’ e compram alimentos em conjunto para poupar

Em tempo de crise, amigos e vizinhos de alguns bairros de Luanda passaram a juntar esforços, e sobretudo dinheiro, para comprar alimentos que depois distribuem por todos, tornando a fatura ao fim do mês menos pesada.

Luanda, 14 dez (Lusa) – Em tempo de crise, amigos e vizinhos de alguns bairros de Luanda passaram a juntar esforços, e sobretudo dinheiro, para comprar alimentos que depois distribuem por todos, tornando a fatura ao fim do mês menos pesada.


O fenómeno, também conhecido como ‘sócia’, envolve pelo menos duas pessoas que, com os seus poucos rendimentos, fazem essa parceria para melhor controlar os gastos, conforme contaram à Lusa algumas destas famílias.


A estratégia serve para comprar um pouco de tudo em conjunto, distribuindo os custos, desde um simples saco de arroz, a uma caixa de óleo, passando pela massa alimentar, peixe ou carne.


No fim, distribuem as compras feitas nos armazéns e praças de comércio a retalho de forma igual entre famílias, como explicam as vizinhas Maria Neves e Indira Neto, de Luanda.


Afirmam que o método é eficaz para “melhor gerir o rendimento mensal”.


“Fizemos ‘sócia’ porque o dinheiro que trouxe é insuficiente, daí que fazemos recurso a esse método com o objetivo de comprarmos mais coisas com o pouco que ganhamos”, contou à Lusa Maria Neves.


Ambas adquiriram, para as respetivas famílias, em conjunto, uma caixa de entrecosto, por 12.500 kwanzas (71 euros). Pagaram em partes iguais e no momento da divisão da carne, garantem que tudo correu normalmente.


Indira Neto explioua que esta “repartição” corre bem e é “boa”, assegurando que “dificilmente há desentendimentos”, por ser um processo feito de “forma justa”.


Um método que, acrescentou, virou “tradição” com a crise que Angola atravessa desde finais de 2014 e que provocou um aumento de 40% na inflação a um ano até outubro.


“Estamos habituadas e assim vamos sobrevivendo com o pouco dinheiro que ganhamos”, disse Indira.


Uma caixa de frango congelado custa, em Luanda, atualmente à volta de 10.900 kwanzas (62 euros), enquanto uma caixa de 12 litros de óleo alimentar chega aos 7.950 kwanzas (45 euros) e um saco de arroz de 25 quilogramas aos 6.290 kwanzas (36 euros).


Várias famílias que utilizam os armazéns de retalho de Luanda compram em conjunto, para garantir um preço mais favorável em função da quantidade, com a ‘sócia’. Nem que seja com outras famílias ou clientes que conhecem no próprio armazém de venda.


Foi o caso de Isabel Martins e Manuel Kaputo que compraram “a meias” uma caixa de massa alimentar por 2.375 kwanzas (13,50 euros). No fim, cada um levou para casa cinco pacotes de massa.


“Fazer ‘sócia’ é já um hábito, o procedimento é normal, dividimos em partes iguais aquilo que adquirimos e no fundo assim conseguimos ajeitar-nos porque a vida está difícil e na dificuldade estamos a sobreviver fazendo esse tipo de compras”, explicou Isabel Martins.


Para Manuel Kaputo, funcionário público, esta junção de valores para comprar em quantidade é fruto da vida atual dos angolanos “devido à crise”.


“Chegámos a este ponto porque nós não temos. Os que têm conseguem comprar sacos e sacos de arroz e nós, que ganhamos mal, temos esta alternativa, porque a crise continua a afetar-nos grandemente, o salário continua cada vez mais desvalorizado”, desabafou.



DYAS // VM


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