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Descoberto voo direto do maçarico: cinco dias da Islândia à Guiné sem comer, nem beber

Uma equipa de investigadores descobriu um novo herói no mundo das aves: chama-se maçarico e abriu “uma autoestrada entre o Ártico e os trópicos” com um voo sem paragens entre a Islândia e a Guiné-Bissau.

*** Luís Fonseca, da agência Lusa ***



Bissau, 05 dez (Lusa) – Uma equipa de investigadores descobriu um novo herói no mundo das aves: chama-se maçarico e abriu “uma autoestrada entre o Ártico e os trópicos” com um voo sem paragens entre a Islândia e a Guiné-Bissau.


“Esta ave faz seis mil quilómetros sobre o oceano sem consumir qualquer alimento e sem beber água, em esforço contínuo, durante cinco dias”, explicou à Lusa, José Alves, investigador do Departamento de Biologia da Universidade de Aveiro (UA), que lhe chama um “voo incrível”.


Trata-se de uma “ponte muito estreita a que chamamos quase uma autoestrada entre o Ártico e as zonas tropicais, nos Bijagós”, arquipélago da Guiné-Bissau, detalhou.


José Alves é um dos coautores do artigo científico que explica a descoberta (numa parceria da UA com a Islândia) e que foi publicado na quarta-feira na Internet pela revista Nature.


O ciclo é repetido todos os anos pela ave cujo peso ronda 350 gramas, “relativamente pequena para estes voos intercontinentais”.


O Maçarico, também conhecido em Portugal como Maçarico Galego (e com o nome científico Numenius phaeopus) “reproduz-se na Islândia, onde passa três meses por ano” e faz depois o voo direto para as ilhas Bijagós, na Guiné-Bissau, “onde passa sete a oito meses” – quando na Europa é inverno.


As ilhas Bijagós servem para o pássaro se alimentar, antes de voltar a viajar para norte, desta vez com paragem na Irlanda e daí para a Islândia.


A descoberta foi feita graças ao seguimento da espécie com um geolocalizador, um aparelho que pesa uma grama, que se fixa numa das patas do pássaro e que regista o percurso e tempo das deslocações.


Conhecer o Maçarico é importante “para perceber quais são os elos” de uma longa cadeia que se estende por milhares de quilómetros.


“É conhecimento fundamental que está sempre à frente do conhecimento aplicado e que nos permite compreender que conservar só aqui [na Guiné-Bissau] não faz sentido sem conservar na Islândia”, exemplificou José Alves.


“Viemos agora até à Guiné-Bissau para perceber como estas aves conseguem adquirir estas reservas de energia” para fazer voos tão longos, acrescentou.


O investigador integra a equipa internacional que está a preparar um novo projeto de estudo e preservação de aves no arquipélago dos Bijagós.


Estima-se que as 80 ilhas e ilhéus da Guiné-Bissau no Oceano Atlântico sirvam de abrigo a mais de um milhão de aves que durante o inverno saem de vários países da Europa, um número que tem vindo a baixar.


“Há um espetro de espécies que está a ser afetado”, referiu à Lusa, José Pedro Granadeiro, docente e investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que integra a equipa.


Os cientistas procuram as razões para este declínio que se verifica noutros pontos do globo: ainda não se percebeu se há problemas “nos sítios onde as aves se reproduzem, se nos locais onde param para se alimentar”, sublinhou.


Com a realização de estudos mais detalhados ao longo dos próximos anos nas ilhas Bijagós, os investigadores vão tentar perceber “encontrar a chave para este declínio”, referiu José Pedro Granadeiro.


Com o projeto “vai haver investigação, mas também capacitação dos técnicos locais”, realçou Aissa Regalla de Barros, dirigente do Instituto de Biodiversidade e Áreas Protegidas (IBAP) do país.


“Já é tempo de haver investigadores locais que possam acompanhar os técnicos externos”, realçou a coordenadora da área de biodiversidade do IBAP.



LFO


Lusa/fim


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