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Após “festas a seco” deslocados no centro de Moçambique partem para 2017 cheios de incertezas

Deslocados no centro de acomodação de Vanduzi, província de Manica, consideram que o conflito em Moçambique agravou a sua condição de pobreza e, após umas “festas a seco”, partem cheios de incertezas para 2017.

*** André Catueira, Agência Lusa ***



Chimoio, Moçambique, 01 jan (Lusa) – Deslocados no centro de acomodação de Vanduzi, província de Manica, consideram que o conflito em Moçambique agravou a sua condição de pobreza e, após umas “festas a seco”, partem cheios de incertezas para 2017.


“Não consigo justificar às crianças, já afetadas pela movimentação [para o campo de deslocados], como passar um Natal e fim do ano sem uma refeição tradicional [frango com arroz colorido] e roupa nova”, conta à Lusa Wilson Bande, carregando estacas que vende no centro de acomodação para suprir as necessidades básicas de nove membros da família.


Cerca de seis mil pessoas permanecem em tendas distribuídas pelo Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (INCG), em cinco centros de acomodação nos distritos de Gondola, Vanduzi, Guro, Mossurize, Báruè e Guro, fugindo da violência do conflito que opõe as forças governamentais e o braço armado da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), maior partido da oposição.


Com os deslocados chegam relatos de violência militar em Chiuala e Honde (Báruè), como destruição de casas e celeiros, saque de criações de aves e gado e ocupação de lojas e barracas para aquartelamento das forças governamentais, além de perseguição dos homens armados da Renamo a líderes locais e pessoas ligadas ao partido no poder.


Além dos relatos de guerra, os deslocados contam histórias de fome e pobreza na chegada aos centros de acomodação.


“Com o que produzíamos, eu dava o melhor da vida à minha família. Agora veja essa vida das tendas. Que esperança posso ter em 2017?”, questiona Fátima Saide, apontando para crianças e mulheres definhando sobre sacos de ráfia nos corredores que separam as tendas, enquanto esperam pela única refeição do dia, servida no fim da tarde.


Antonio Fan, outro deslocado, refere que as noticias que chegam da sua aldeia “desanimam”, lamentando que tudo o que deixou para trás durante a fuga foi levado por militares ou oportunistas.


Entre os corredores das tendas, há quem saia para tentar ganhar a subsistência em quintais ou quem apenas fique, entre lamentos sobre a passagem inadequada das festas e as incertezas sobre o retorno em 2017 à vida pré-guerra.


“Não se sabe se um dia voltaremos a casa, porque há pessoas a quem já foram cedidos talhões para construir, e estão a ser desencorajadas a voltarem a se instalar naquelas zonas de conflito”, prossegue Vailete Chiringa, que, com a ajuda do executivo, procura abrir uma quinta de produção em Vanduzi.


O número de deslocados tem uma oscilação frequente, em que nuns períodos os campos de acomodação ficam lotados e noutros vazios, embora “nenhum dos que deu entrada tenha regressado a casa”, segundo Almeida Teixeira, delegado INGC em Manica.


Apesar das queixas dos deslocados, Almeida Teixeira disse que o INGC abasteceu mantimentos em dezembro, para permitir que tivessem festas condignas.


“Foi distribuído o mantimento de dezembro e os deslocados têm alimentos. Agora estamos a trabalhar para assegurar o provimento de janeiro, que está garantido com a doação de arroz chinês e de outros parceiros”, informou.


A região centro do país tem sido palco de emboscadas a alvos civis e militares que as autoridades atribuem ao braço armado da Renamo.


A Renamo exige governar em seis províncias onde reivindica vitória nas eleições gerais de 2014.


As forças do Governo e da oposição têm-se envolvido em confrontos, enquanto representantes das duas partes iniciaram um processo negocial em Maputo, ainda sem resultados.


Uma trégua anunciada em 27 de dezembro pelo líder da Renamo, Afonso Dhlakama, como “gesto de boa vontade”, termina na quarta-feira.


AYAC // JMR


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