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«Às vezes já não tenho forças para lhe dar amor» | Ana Afonso é mãe de um menino autista

Ana Afonso abriu o coração à Nova Gente há praticamente dois anos e recordamos agora esse momento emocionante. Não foi fácil para a atriz, quando se luta constantemente pelo amor do filho autista. «Uma mãe revisita a criança que há em si. E quando essa criança ainda está magoada… Sinto que ainda estou vazia.»

Ana Afonso abriu o coração à Nova Gente há praticamente dois anos e recordamos agora esse momento emocionante. Não foi fácil para a atriz, quando se luta constantemente pelo amor do filho autista.

«Uma mãe revisita a criança que há em si. E quando essa criança ainda está magoada… Sinto que ainda estou vazia», lamenta Ana Afonso

Esteve no Algarve, na Escócia… Por onde andou?

Depois da Escócia, regressei ao Algarve e ao Estoril, e estou em Santo Estevão há cerca de um ano [agora, três].

Sente-se uma saltimbanco?

Não. Tem sido uma evolução. As coisas têm mudado, a minha vida tem mudado. Tive dois filhos de que não estava à espera, da relação com o Rodrigo, e as coisas foram evoluindo em função destes acontecimentos para outros patamares.

Foi indo atrás da vida.

Sim, mas a vida também me tem perseguido.

Tem dois filhos, para além da sua mais velha.

Sim, e vou ficar por aqui.

Tem um filho diferente daqueles a que a maior parte das mães estão habituadas. O Diogo tem quatro anos [agora seis] e é um menino especial.

É…

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[Ana Afonso emociona-se. Debate-se para não chorar, mas acaba por fazê-lo. Toda a conversa se desenrola depois entre o peso do sofrimento e a tentativa para reunir forças para continuar falar – «faz-me bem desabafar», diz. Toda esta entrevista é, portanto, um exercício de desabafo, íntimo e doloroso e em simultâneo uma prova de coragem difícil de encontrar em mães como Ana Afonso.]

Ainda não consigo falar deste assunto sem me emocionar porque apesar de saber que o Diogo é autista – a condição foi diagnosticada ao ano e meio – continuo sem saber como vai ser o futuro dele.

Todas as pequenas evoluções têm sido morosas. O Diogo não diz uma única palavra [ainda hoje, aos seis anos]. Continua a usar fraldas e ainda é muito cedo e isso assusta-me. Custa-me muito porque entretanto já tive uma outra filha e não tem nada que ver. Ela já o ultrapassou. Para uma mãe é difícil viver isto.

Os autistas são crianças com ritmos diferentes.

Completamente. Ainda não consigo falar deste assunto de sorriso na cara, como muitas mães já conseguem. Porque para mim isto tudo ainda é um grande mistério.

«Não é fácil lidar com uma criança com este distúrbio, e o Diogo nem sequer é uma criança muito violenta, nem sequer faz muitas birras»

Está em negação?

Não, não. Desde o primeiro dia, em que a pediatra me disse que desconfiava de que o Diogo podia ter o distúrbio, acreditei logo, senti logo que o meu filho tinha qualquer coisa. Eu já tinha tido uma filha antes…

Ainda pensei «bem, se calhar é por ser rapaz»… Mas quando ela me falou de que desconfiava de que havia qualquer coisa e que podia ser autismo, imediatamente aceitei, apesar de ter sido muito doloroso.

Não fiquei em negação, mas ainda hoje estou em estado de choque. [Agora «já não tanto, porque ele cresceu um bocadinho«, atualiza-nos a atriz.] Ainda não consegui ultrapassar aquela coisa que que vejo quando vou a reuniões de pais em que eles dizem «ai, eles são a melhor coisa do Mundo, são uns anjinhos»… Claro que são!

Só que eu ainda tenho dificuldades em lidar com tudo isto porque é muito cansativo, como se pode ver. [Já «não tanto», como há dois anos, mas…] Não é fácil lidar com uma criança com este distúrbio, e o Diogo nem sequer é uma criança muito violenta, nem sequer faz muitas birras.

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É hiperativo?

É calmo. Temos a sorte de ele dormir a noite toda, por exemplo. Há muitas crianças que não conseguem dormir a noite toda, choram muito, são hiperativas… Só que não sei o futuro…

O Diogo está a ficar mais crescido e por exemplo já me faltam as forças para o agarrar… Ele quando quer uma coisa que não pode começa aos pontapés.

São comportamentos que começam a tornar-se difíceis de lidar e é muito frustrante para mim não conseguir controlar isto e não saber explica-lhe o motivo de não dever fazer determinadas coisas por poder, num extremo, colocar a vida dele em risco… Ele não compreende isso e também é muito difícil vê-lo no mundo dele…

Sente que estão mundos paralelos?

Por vezes, sim. Agora está melhor, mais desbloqueado, mas há um ano e tal o Diogo estava mesmo fechado no seu mundo. De vez em quando, sem dizermos nada, ele até vem ter connosco e ri, e isso é uma grande vitória já. Ainda hoje, eu chamo – «Diogo!» – e ele não me liga nenhuma e é preciso insistir várias vezes.

Ele não brinca com os brinquedos normalmente. Por exemplo, a minha filha, que só tem dois anos [agora, quatro], já usa os telefones para fazer o «alô» e, para ele, um telefone serve para girar, para lhe dar movimento. Ele só quer os objetos para girar, para atirar para o chão, para fazer barulho. Mais nada, não passa daí.

O que é que dizem os especialistas no sentido de ajudar os pais a lidarem com estas crianças?

Há várias teorias e várias maneiras de ajudar. O mais difícil é chegar a eles, quebrar aquele escudo deles entre os nossos mundos, o deles e o nosso. Se conseguirmos fazer isso, é a partir daí que se pode trabalhar e isso é feito com muito amor. E há quem diga que imitando-o ele se deixe abrir. Há muita teoria…

É uma aprendizagem constante.

Sim, e nunca sabemos tudo por mais livros e mais artigos que possamos ler, por exemplo na Internet. Há muita coisa, muita coisa, e é tanta que se chega a uma altura em que já não dá vontade de ver nada.

«Dou amor ao meu filho, mas às vezes sinto que já não tenho nem forças para isso, para lhe dar amor… E é muito frustrante»

Sobra a ferramenta do amor, que não está nos livros.

Sim, só que às tantas para mim o cansaço já é tão grande que já não sei onde é que vou buscar forças para… Quer dizer, obviamente que dou amor ao meu filho, mas às vezes sinto que já não tenho nem forças para isso, para lhe dar amor… E é muito frustrante.

Sente-se esgotada?

Sim, e depois ainda tenho a pequenina, não é… E essa é um furacão, é mesmo! É muito engraçada.

O Rodrigo, seu marido, tem também um papel importante.

Sim, não fui deixada ao Deus-dará… É um excelente companheiro, um extraordinário pai.

E a irmã mais velha?

Adora os irmãos! Filma os irmãos, tem uma paixão indescritível por eles.

E a mais nova? Para ela a vida é ainda só um arco-íris de animação ou já percebe qualquer coisa em relação ao irmão?

Ainda não percebeu, mas não há de faltar muito, porque é muito espertalhona.

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Apesar desta tempestade que é ter um filho como o Diogo, é possível haver harmonia familiar?

É muito mais complicado, mesmo a nível de casal… Porque cada um tem a sua opinião, a sua visão, a sua capacidade de resistência… Acaba sempre por se chegar a um consenso. Mas no meio disso tudo há sempre altos e baixos. Quem tem filhos tem cadilhos e isso já toda a gente sabe, não é…? Mas não é fácil, é muito cansativo. O Diogo cansa-nos muito, muito mesmo. Uma pessoa chega ao final do dia e, além do cansaço, não saber o dia de amanhã…

Sabemos alguma vez o dia de amanhã?

Pois não, mas numa criança típica sabe-se que aos seis anos vai estar em determinado patamar, entrar na primária, que vai começar a ler e a escrever, que já fala tudo, essas coisas. Em relação ao Diogo, não sei nada dessas coisas e nem sei se algum dia irá falar, por exemplo… Apesar de me dizerem que sim. [De momento, e passados dois anos, o filho de Ana Afonso continua a não falar.]

«Estas crianças têm esta particularidade de se frustrarem rapidamente, com qualquer coisa, e isso também me deixa angustiada»

Sente que ele é um menino feliz?

Sim, acho que é, acho que é… Porque… Porque vejo-o rir muitas vezes e… Mas às vezes, quando o vejo frustrado… Estas crianças têm esta particularidade de se frustrarem rapidamente, com qualquer coisa, e isso também me deixa angustiada.

Será porque, provavelmente, eles têm de aprender tudo sozinhos?

Eles não compreendem as coisas da mesma maneira do que nós.

E é difícil explicar-lhes…

Pois…

Daí a pergunta – sente que ele tem de aprender tudo sozinho, por ser muito difícil comunicar com ele?

Sim, mas a felicidade está lá, apesar de tudo, sinto que sim. Bom, o amor não falta cá em casa, isso não falta… Só que será o suficiente? Não sabemos. Estamos a fazer o que está ao nosso alcance… Inclusive dietas…

A dieta SGSC (Sem Glúten e Sem Caseína)?

Exatamente, e também sem a soja, que tem uma proteína semelhante à caseína. Nas minhas pesquisas, descobri que esse determinado tipo de alimentos é prejudicial e desde há um ano e pouco que iniciámos o Diogo nessa dieta. E ele está muito melhor. No início, foi difícil porque ele estava habituado àqueles alimentos, mas agora é mais fácil. O meu filho, antes de fazer esta dieta, tinha muitos comportamentos compulsivos – por exemplo, rodar objetos sem parar, sem parar, mas de uma maneira que me fazia impressão olhar…!; faz mesmo impressão! – e agora está muito mais calmo. Sem comparação.

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Sente que a sua vida é uma aventura caótica?

Sem dúvida! [Risos.] Não podia descrevê-la melhor… Uma aventura caótica… Mas desde que nasci! Até antes de ter nascido…

Como foi a sua infância?

[Silêncio. Temos de fazer uma pausa na entrevista. Ana Afonso recompõe-se.] Não me importo de falar na minha infância. Um dia, escrevo um livro. A minha infância foi terrível, e há coisas que vou guardar para essa altura. Mas agora, depois de tudo ter passado, há coisas que até considero serem engraçadas. A minha infância foi difícil.

Consegue esquecer?

Há sequelas, e por isso, para mim, talvez seja mais difícil lidar com isto tudo.

«A verdade é que eu… sou… um caco… Estou a tentar não fazer aos outros só porque fizeram a mim… E eu sei muito bem por que é que às vezes me vou abaixo, por que é que às vezes me sinto sozinha no mundo»

Julgou que, finalmente, seria feliz…

É difícil ser-se plenamente feliz quando se teve uma infância difícil, acho eu. Uma mulher quando é mãe revisita a criança que há em si. E quando essa criança é uma criança que ainda está magoada, e se calhar ainda não está resolvida, sinto que não tenho tantas forças para poder… Sinto que ainda estou vazia, que não me ensinaram a amar como deveria. Eu acho que consegui quebrar esse padrão, porque tive a minha filha e disse que nunca iria fazer aos meus filhos aquilo que fizeram a mim, e consegui. Mas a verdade é que eu… sou… um caco… Estou a tentar não fazer aos outros só porque fizeram a mim… E eu sei muito bem por que é que às vezes me vou abaixo, por que é que às vezes me sinto sozinha no mundo…

Mas hoje, recebe amor?

Sim, mas mesmo assim, às vezes, penso muito… As pessoas ficaram muito chocadas com o suicídio do Robin Williams. Aí está um caso… Ele tinha a família, trabalho, sucesso e, no entanto, era uma pessoa que sofria e que acabou com a vida. Aí está um exemplo de como podemos estar rodeados de pessoas que nos amam e no entanto sentirmo-nos sozinhos.

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Sente-se apenas sozinha, ou tem outro tipo de ideias?

Já tive. Já tive. Já tive, é verdade. Já tive fases muito más. Já tive fases em que pensei “se eu não estou bem, não estou aqui a fazer nada, só estou a fazer mal”. Não é o caso, neste momento. Claro que estou muito em baixo, mas…

Nos outros momentos difíceis por que passou, teve ajuda?

Sim, sempre fiz psicoterapia. Tive um psicólogo que me disse que com as sessões que já tinha podia ir a Inglaterra fazer durante um ano uma coisa que ele lá me disse e que já podia ser psicoterapeuta…

Em que é que o psicoterapeuta nos pode ajudar?

Ajuda-nos a perceber muita coisa.

O que é que a faz sorrir?

As gargalhadas de um bebé. Bebés às gargalhadas fazem-me sorrir. É verdade, fazem-me sorrir.

«Seria bom se eu voltasse ao trabalho, e se voltasse obviamente que arranjava pessoas para me ajudar com o Diogo»

Seria impensável voltar à sua profissão, atriz, neste momento?

Pelo contrário, até me fazia bem. Estou com uma ligeira depressão por causa do que aconteceu. Não estou a lidar muito bem com esta situação. Estou a fazer psicoterapia para me ajudar e a própria psicóloga me aconselha no sentido de que seria muito bom sair de casa e não estar sempre neste mundo a pensar constantemente nisto. Seria bom se eu voltasse ao trabalho, e se voltasse obviamente que arranjava pessoas para me ajudar com o Diogo. [Dois anos depois de esta entrevista ter sido tornada pública, Ana Afonso ainda não conseguiu trabalho na área da representação.]

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Seria o equilíbrio que lhe falta?

Sim. Eu precisava mesmo de voltar a trabalhar. Gostava mesmo de retomar o ciclo que deixei e que amei.

E a pintura? A Ana pintava.

Bloqueei. Não consigo sozinha. Não sou capaz de agarrar numa tela. Tenho medo.

Nem encarando a pintura como terapia, como desabafo?

Sim, a pintura é exatamente isso, o inconsciente a mandar cá para fora. Mas bloqueei, talvez precise de voltar a ter aulas… Eventualmente retomar o curso que deixei a meio.

 

Texto: Luís Martins | Fotos: Filipe Brito
[entrevista originalmente publicada na revista Nova Gente]

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