Agressões jornalistas RTP

Quem é que estava a pedi-las?

Rita Marrafa de Carvalho relata na primeira pessoa as agressões aos repórteres da RTP na Escola Básica de Lóios, em Chelas. ” O Ricardo Passos Mota é um repórter de imagem que não se ouve a gritar ou pedir ajuda em nenhum frame das imagens.”
Tenho um colega com pontos na cabeça, a cara inchada, o corpo dorido dos pontapés e o pulso partido. Tenho um colega ainda anestesiado pelo ataque bárbaro de que foi alvo.
 Diz que não se lembra da dor das biqueiradas daquele que perdeu um dos ténis na violência do embate. Nunca largou a câmara que foi atirada pelo ar. O Ricardo Passos Mota é um repórter de imagem que não se ouve a gritar ou pedir ajuda em nenhum frame das imagens.
Nunca deixou de filmar. Mesmo quando estava tombado no chão e a Lavínia Leal, a jornalista que com ele fazia equipa, e um agente da PSP, o foram ajudar. O banco branco, enferrujado, com que lhe deram na cabeça, foi arremessado para o descampado ao lado. Perdeu o relógio pelo chão. Achado, depois, no bolso de um dos presentes na confusão.
A história é simples e conta-se em poucas palavras.
Um rapaz de 9 anos queixa-se de agressão sexual por parte de um colega de 12 anos. Tudo se terá passado numa segunda-feira. Um familiar contacta a RTP… temem alguma inação por parte da escola, querem reunir imediatamente com direcção e familiares do alegado agressor, pretendem denunciar o caso e, nesse mesmo dia, levar o jovem ao hospital.
A RTP contactou, de imediato, Ministério da Educação e estabelecimento escolar. Este último NUNCA, repito, NUNCA atendeu o telefone… e fui eu quem fez o contacto. Resolvi ligar para a escola do Agrupamento Escolar. Foi-me dito que estavam em reunião. Uma equipa, Lavínia e Ricardo, avançam para apurar os factos e conversar com a mãe da alegada vítima.
Quando chegam, estão já presentes alguns elementos da PSP. A reunião podia ser tensa entre famílias. Estão, à distância, conversando com a mãe, quando no interior do recinto escolar começam as agressões. Repito: dentro do recinto escolar, duas mulheres começam a agredir-se. A escola é invadida por vários homens e mulheres e a polícia, nitidamente, fica em clara desvantagem.
O repórter de imagem começa a filmar apenas nessa altura… quando os agressores que invadem a escola reparam na existência de uma câmara. Regressam e descarregam sobre o Ricardo… é chato haver registo de imagens quando praticamos crimes. Não convém sermos filmados quando agredimos uma mulher grávida dentro de um recinto escolar.
As testemunhas, nestes casos, têm de ser silenciadas. Tiveram azar… estão identificados. Os três.
Como estão identificados todos os que, mediocremente, não sabem o que é andar no terreno.  Não sabem que riscos correm os jornalistas. Não sabem o que é fazer jornalismo. O que é notícia. Os que opinam na sua poltrona aveludada. Os que emitem considerações sem todos os factos. Porque se esquecem que só com factos se trabalha. E os factos só se alcançam indo. Apurando. Conversando. Ouvindo e vendo. Estando. Na rua. No mundo.
E quando se perde a noção de tudo isto, é melhor entregar a carteira profissional de jornalista. Porque, obviamente, já se perdeu o bom senso.

Secretário

Rita Marrafa de Carvalho | Jornalista

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