Secretário geral das Nações Unidas

O secretário saiu à rua

“O secretário-geral da Organização das Nações Unidas de pull-over azul, contagiado pela serenidade daquele Tejo, pendeu o braço, cansado, aposto, no ombro da sua mulher.”

Almoçaram num restaurante simples. Sem pretensões ou cuidados. Sem cerimónias. Discretos. Conversaram ali uma boa hora e meia. Com a calma dos amores e a intensidade dos amantes. As vozes baixas e alguns sorrisos. Não se ouviam os temas. Pouco interessava. Estava espelhado nos rostos a cumplicidade de uma vida.

Os seguranças, a um canto, esses sim, pouco discretos, engravatados, enfadados, transpirados, encostados aos carros. Olhavam, de soslaio, para os sinais do fim da refeição. Logo ali, a uns metros, o rio e umas gaivotas gulosas, atentas aos esquecimentos nas esplanadas ou fugitivas de um mau tempo em alto mar.

Olhávamos todos a outra margem e a ponte quase franciscana, igualmente bela. António e Catarina pagaram, saíram, de mão dada. O ar aliviado dos seguranças, alguma troca de palavras e o regresso ao tom impaciente, condescendente, claramente incomodado. O secretário-geral da Organização das Nações Unidas de pull-over azul, contagiado pela serenidade daquele Tejo, pendeu o braço, cansado, aposto, no ombro da sua mulher.

Suavemente. Ela enlaçou-lhe a cintura, docemente, de mão firme.

Avessos aos olhares curiosos, percorreram o rio, a passo lento e demorado. A mão direita de Catarina a segura-lhe os dedos que pendiam do ombro. Passo a passo. Voltaram, de mãos enlaçadas. Dedos casados. Não havia… mas ouvi música. Ouvi mar e música. Vi os sorrisos de António e Catarina, junto ao rio, iluminados por um sol especialmente quente, na conversa de quem se encanta ainda com todas as descobertas, com todas as confissões.

Uma meia hora de caminho, lado a lado. Não havia fotógrafos. Nem jornalistas. Nem perseguições ou perguntas incómodas. Nem pedidos de selfies ou autógrafos. Os dois. Catarina e António a passear junto ao Tejo. Voltaram para agrado dos seguranças. Mantive-me na minha esplanada. Sentada, a vê-los, de cá, para lá. E só eu ouvia música. Pensei em Sakamoto e em Morricone. António e Catarina comoveram-me. E eu que já me comovo com tão pouco… em silêncio, agradeci-lhes.

Secretário

Rita Marrafa de Carvalho | Jornalista

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