Mark Rutte

Go, Orange!

Se tivesse ganhado a extrema direita neste país de bicicletas e janelas abertas, seria sinal de que a Europa, como a conhecemos, estaria a implodir.

Um dos dias da minha vida que gosto mais de recordar é aquele em que desembarquei na Gare de Amesterdão – cidade que  adoro e onde fui muito feliz – vestida com uma saia comprida, de seda, aos folhos, laranja como um semáforo.

Era uma saia de Verão que eu adorava e vestia muitas vezes. Só que naquele dia, para meu enormíssimo espanto, toda a gente à minha volta vestia laranja da cabeça aos pés. Como fiquei a saber logo a seguir, era a festa do Dia da Rainha.

Nesse dia, os holandeses saem à rua, integralmente vestidos de cor-de- laranja, incluindo o próprio monarca (à rainha Beatriz sucedeu, entretanto, o filho, Guilherme Alexandre). Nesse dia, feriado nacional, os holandeses celebram a dinastia de Orange.

O que vi nas ruas era a própria definição da Holanda: a mistura das raças, a tolerância, a alegria, a descontração. Algumas pessoas estendiam panos no chão das ruas do centro da cidade para piquenicar. Outras montavam banquinhas onde cozinhavam tudo e mais alguma coisa para o compatriota mais faminto. Outras, ainda, armavam estaminé para negociarem livros, discos, bibelôs, candeeiros antiquados, torradeiras vintage e outros pequenos tesouros kitsh que traziam de casa.

Todos bebiam, dançavam e riam, sob a característica chuva miudinha.

A tolerância é a imagem de marca desta nação, composta por gente de todas as raças e proveniências. Cedo reconheceram o direito à liberdade individual, seja no que respeita às drogas recreativas (vendidas e consumidas legalmente em espaços devidamente licenciados), seja em relação ao trabalho sexual (taxado e sanitariamente fiscalizado).

Entre outras decisões importantes no domínio dos direitos civis, os holandeses aprovaram o casamento gay e a adoção por casais homossexuais há 17 anos e legalizaram o aborto em há 36.

Se tivesse ganhado a extrema direita neste país de bicicletas e janelas abertas, seria sinal de que a Europa, como a conhecemos, estaria a implodir. Assim, e por enquanto, perante os resultados destas eleições, ficamos “só” em alerta… laranja.

Ana Prista

Ana Prista, jornalista arrependida | leia mais sobre a autora AQUI

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