Carolina Patrocínio

Celebridades, o sabor autêntico

Ana Rita Clara, Rita Pereira e Carolina Patrocínio: três celebridades, duas formas completamente diferentes de gerir presença nas redes sociais. Podem o Facebook e o Instagram ajudar a construir (e a destruir) a imagem pública?

Talvez não tenha esta noção, mas as redes sociais transformaram por completo o trabalho dos jornalistas. Antes de as celebridades utilizarem páginas oficiais e blogues, eram as revistas e os jornais os meios oficiais para divulgar novos namoros, revelar separações, dar conta de gravidezes, doenças, boas novas e broncas menos benfazejas.

Com a massificação das redes sociais como via oficial de comunicar, o trabalho jornalístico (sobretudo este a que costumam apelidar de cor de rosa) tornou-se por vezes mais desafiante e, noutras ocasiões, mais esvaziado de conteúdo. A dependência desta atividade do que é divulgado na rede é uma questão que se discute cada vez mais nas redações e não há, por enquanto, respostas concretas sobre como utilizar estes conteúdos e que mediação fazer deles.

Isto conduz-nos a outra questão, a da autenticidade. “Podeis enganar toda a gente durante um certo tempo; podeis mesmo enganar algumas pessoas todo o tempo; mas não vos será possível enganar sempre toda a gente”, disse o antigo presidente dos Estados Unidos Abraham Lincoln. E esta frase aplica-se na perfeição às celebridades e à forma como utilizam as redes sociais para comunicarem com os fãs.

Falemos de exemplos práticos: na semana passada, a apresentadora Ana Rita Clara utilizou o seu blogue, Ana272, para, provavelmente com todas as boas intenções do mundo, dar conselhos sobre maternidade. Ana Rita Clara, que tem um filho de quatro meses, achou que estava a divulgar uma mensagem útil e positiva ao aconselhar as seguidoras, escrevendo coisas como “tenham sempre uns ténis no carro, para não deixarem o conforto em casa, e coloquem diariamente snacks saudáveis na vossa mala” ou “e nunca se esqueçam de se cuidarem, o desporto ajuda a que a mente se conserve fresca e sã, a boa alimentação ajuda no mesmo sentido e faz com que não se sintam tão fatigadas”.

Claro que esta amálgama de lugares comuns, acompanhada de fotografias ultra-produzidas, em que a apresentadora da SIC Mulher surge com carrinho de bebé topo de gama, casaco de fake fur ultra-colorido, jeans rasgados ultra-fashion e saltos agulha, gerou comentários menos positivos. Muitos a acusarem Ana Rita Clara de estar completamente desfasada da realidade da maioria das mães portuguesas e dos esforços titânicos que têm de fazer para que do malabarismo maternidade-trabalho-lida da casa-gestão de orçamento familiar resulte algum equilíbrio.

Claro que não se pede a Ana Rita Clara que, de repente, comece a fazer máquinas de roupa, a passar a ferro e a cozinhar panelas de sopa enquanto cuida do filho… só para saber como vivem, vá, 80% das mães que trabalham. Até porque – não sejamos hipócritas – qualquer um de nós que tivesse o estatuto sócio-económico de Ana Rita Clara não perderia tempo a dobrar meias nem a esfregar retretes com lixívia. Pagaria a alguém para o fazer.

O pecadilho (chamemos-lhe assim porque, com a voragem do tempo, estas pequenas polémicas chegam, instalam-se e desaparecem num piscar de olhos) de Ana Rita Clara foi tentar ser quem não é. E isso, nas redes sociais, é difícil esconder. Os internautas são pródigos a detetar incoerências e, quando as apanham, são implacáveis. Por outro lado, são fiéis a quem mantém postura e linha “editorial”, digamos assim, consistentes.

Os exemplos de Rita Pereira e de Carolina Patrocínio

Vejam-se dois exemplos de celebridades que, por se manterem fieis a um certo estilo, a uma certa postura, construíram uma base de fãs indefectível: Rita Pereira e Carolina Patrocínio. A primeira porque mantém uma certa espontaneidade nos seus posts, a segunda porque sabe exatamente até onde ir, o que mostrar, de que assuntos falar.

🐶😁🐶 #HyndiaHeyvi

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Numa era em que a distância entre a celebridade e o público está cada vez mais intermediada por agentes, publicists, gabinetes de comunicação e quejandos, é maravilhosamente refrescante ver que, de vez em quando, Rita Pereira ainda responde à letra a alguns dos comentários mais desagradáveis dos seus seguidores. Pode ser um pesadelo em termos de estratégia de comunicação mas, para quem a segue, transmite proximidade. Afinal, é mesmo ela que está do outro lado e não alguém pago para escrever posts e publicar fotos.

Feira de Estremoz #fimdesemanaVdA #familia #alentejo

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Carolina Patrocínio apostou desde cedo – e bem – no Instagram. Foi pioneira em Portugal da discussão sobre a recuperação pós-parto e, apesar de não se aventurar em discussões político-filosóficas sobre o tema, diz mais com imagens do que muitas tentam dizer com palavras. Apesar de ter aquilo que muitos podem ver como a família perfeita, há ali algo de muito próximo, familiar, nas fotografias das suas crianças, nos momentos de descontracção com as irmãs.

E é este sabor autêntico, esta espontaneidade, esta familiaridade (misturada, claro, com apontamentos aspiracionais) que fazem com que Carolina Patrocínio seja tão procurada por marcas (não são grandes campanhas publicitárias, mas, se analisarem atentamente o Instagram da apresentadora… elas estão lá), desejosas por fazerem parte deste universo e, por estarem associadas a Patrocíncio, conseguirem facturar junto dos seus 343 mil seguidores.

Será, então, possível fabricar autenticidade? Talvez sim, talvez não. O segredo reside, sobretudo, em não se ser aquilo que não se é.

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Raquel Costa | redatora principal


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